Daughter

Um Sopro de Morte

Por Jorge Cruz

Daughter” (no original Dcera, tradução de filha na língua tcheca) pode até não vencer o Oscar 2020 na categoria melhor curta-metragem de animação. Todavia, é uma obra que – em comparação com os outros quatros nomeados – se revela a única que consegue, de fato, se utilizar dessa linguagem e metragem para entregar uma produção de teor artístico que faça jus a uma premiação desse porte.

Nem por isso a realizadora Daria Kashcheeva deixa de iniciar a trajetoria com uma premissa simples e direta típica de um filme de curta duração. “Daughter” conta a história de uma mulher que, ao ver seu pai lutando pela vida em um leito de hospital, recupera lembranças – por vezes desconexas e claudicantes – de sua relação com ele.

O estranhamento causado pelo passeio em diversos planos de existência, transitando entre memórias, divagações e idealizações faz com que o espectador tenha apenas uma saída: viver o que a protagonista tem a dizer. É até covardia comparar “Daughter” com curtas-metragens como “Hair Love“, Kitbull” e até mesmo “Sister“. Enquanto obras como essas elegem um tema e criam uma narrativa circular em torno de sua trama, o filme de Kashcheeva trata de ser filha e ter um pai – longe da perfeição – com um aditivo sensorial que os outros realizadores não ousam fazer.

A exploração da história a partir de flashes de certa forma incomunicáveis se alinha bem aos cortes secos e à utilização dos sons da cidades. A ambientação próxima do surrealismo também é representada na constante máscara utilizada pela personagem quando das interações mais realistas com seu pai. As relações familiares, decerto, nos exigem essas construções de máscaras para que nossa sanidade seja mantida. O peso de nunca poder dizer o que se quer ser dito geralmente é sentido quando há a materialização da ausência. Em muitas relações dessa natureza, o amor e o ódio são verbalizados apenas em momentos-chaves, em que atos preparatórios se estabelecem.

Por isso “Daughter” é, ao mesmo tempo, esteticamente primoroso e tematicamente poderoso. Uma obra que faz viajar, faz sentir e – assim que as luzes se acendem – faz pensar. Ao mesmo tempo em que nos aproxima da expressão “enquanto há vida, há esperança” nos mantém aprisionados quando é nítida a dificuldade do toque. Sem o melodrama, o curta-metragem nos emociona ao idealizar todos os abraços que nunca serão dados.

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