Danças Negras

A Academia do mundo

Por Vitor Velloso

Em Breve

“Danças Negras”, de João Nascimento e Firmino Pitanga, é um projeto que se propõe a fomentar um debate que tem como objeto central o que está exposto no próprio título. É uma produção enxuta, de aparente baixo orçamento, e que (talvez por isso) é capaz de atingir seu objetivo em um período curto de projeção, ainda que com alguns problemas. Se analisarmos a própria articulação do filme, fica claro que sua intenção é partir de um ponto estrutural da sociedade brasileira, não por acaso a UFBA (Universidade Federal da Bahia) é constantemente retomada como ponto basilar para compreender os processos racistas da sociedade. Porém, está claro que a Academia não pode ser parâmetro rigoroso na discussão em torno do país.

O filme consegue um efeito imediato, expondo a questão cultural, política e religiosa como uma manifestação da própria formação histórica do país, que hoje (e sempre) foram escanteados pela elite brasileira, que visa seus avanços neoliberais e tentativa de homologação cultural. Mas quando o longa procura esse debate a partir da prática, a expressão dos corpos e de toda uma ancestralidade ali materializada, entre os movimentos e gestos, as coisas fluem melhor que certas rodadas argumentativas que reforçam a importância das “Danças Negras” em sua totalidade, que acabam criando um certo ciclo vicioso em uma estrutura que acaba sendo mais caótica que o planejado. Um salto de Clyde, ao currículo, ao olhar “descolonial” acaba dando uma série de fragmentos mas não uma unidade que vai ganhando forma conforme progride, pelo contrário, os eixos vão se distanciando cada vez mais e apesar de um núcleo comum cada um discursa sobre algo e os ganchos não são bem costurados.

Porém, esse aspecto quase institucional possui o mérito de não se distanciar com aqueles olhares acadêmicos estetizantes que vão se amontoando pelos festivais. Trata-se de uma manifestação passional em torno da arte e da cultura afro-brasileira que só pode ser exposta como parte de um sentimento exponencial de insatisfação pela maneira como os brasileiros lidam com a mesma. Ainda que essa base em torno da estrutura funcione, tomando a Universidade como exemplo e uma série de debates em torno do racismo nacional, as coisas parecem demasiadamente encerradas em ciclos acadêmicos. Ainda que o tema deva ser tratado com o devido peso na educação brasileira, manter essa perspectiva no ensino superior faz com que a multiplicidade, e eficácia, do trabalho pedagógico esteja distante da pauta. É uma forma de deslocar parte do problema para um exemplo, o que divide o documentário em dois momentos: a exposição histórica e as resoluções que procuram internalizar algumas atitudes, na intenção de modificar a superestrutura. Na tomada histórica, as coisas são dadas superficialmente e um tanto apressadas, nas resoluções acaba se tornando uma homenagem ao Clyde e não consegue sair muito do ciclo vicioso de perguntar e retornar ao artista.

“Danças Negras” acaba perdendo parte de seu ritmo conforme seu progresso atravessa algumas dificuldades de conectar as diferentes entrevistas e relacionar imediatamente com o próprio material, o captado e o de arquivo. Fica claro que o maior desafio aqui, era compreender uma multiplicidade relevante de depoimentos e organizar de maneira constante os diferentes fragmentos de uma captação que soa perdida em diversos momentos. Ainda que os excessos de altos e baixos transformem a experiência geral em uma arritmia, uma série de discussões podem ser levantadas a partir do projeto e uma futura exibição com fins pedagógicos em salas de aula será capaz de provocar o debate para longe do eixo acadêmico. E por essa razão, a representação em torno dessa instituição, acaba fragilizando um discurso que é transnacional, histórico e com ressonâncias diversas. A manutenção acadêmica acaba sendo feita, não pela ótica enxuta, mas pelo rigor da Universidade.

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