Cunningham

Um convite ao espetáculo

Por Vinicius Machado

Durante a Mostra de São Paulo 2019

O famoso coreógrafo e dançarino americano Merce Cunningham morreu em 2009, mas seu legado na dança moderna permanece até hoje. Ao lado de seu parceiro, John Cage, sua arte abriu espaço para as novas perspectivas e maneiras de experimentar o mundo. Ele foi responsável por criar mais de 200 coreografias e realizar cerca de 700 espetáculos. Esse patrimônio artístico é retratado no novo filme  “Cunningham”, de Alla Kvogan.

O diretor russo traz uma experiência sensorial para seu público numa produção rodada em 3D que se alterna entre registros oficias, como documentos, relatos e fotos, e também encenações atuais de coreografias famosas. Esse é um dos grandes exemplos de que sua eficácia depende de uma tela grande, algo como “Avatar”, de James Cameron. A profundidade de campo, as cores e o trabalho de fotografia surtiriam pouco efeito se vistos numa televisão convencional.

E o mais interessante desse experimento é que, mesmo quem não está familiarizado com a dança vai conseguir se conectar ao filme justamente por esse apelo. No começo pode até soar estranho, já que as cenas possuem planos divididos na tela, sob uma narração pouco efusiva e uma tela escura. Mas ao longo desse percurso, a arte cativa e puxa o espectador para dentro de um verdadeiro espetáculo. Aos amantes do ballet, é bem possível de que a conexão seja instantânea.

Kvogan também possui a intenção de seguir os passos cronológicos de “Cunningham”, mais precisamente seus trinta primeiros anos, entre os anos 40 e 70. Dentro disso, há um entendimento de dentro pra fora de como funciona um grupo em ascensão e o que foi necessário para que o coreógrafo americano alcançasse a notoriedade no mundo artístico. Desde suas primeiras apresentações com o grupo, onde viajam num ônibus pequeno e com poucas condições, passando pelo momento em que sua arte não é reconhecida por ser tão pioneira, até o momento em que ele se torna um dos mais respeitados dançarinos do mundo. Ao lado dele, estão ícones da cultura pop americana, como os pintores Jasper Johns, Andy Warhol e Robert Rauschenberg.

Mas apesar de ser uma história de perseverança e seus registros históricos virem carregados de detalhes e uma composição de tela muito estruturada, são as representações das coreografias que chamam mais a atenção. A riqueza artística das apresentações é tanta que é quase impossível não se emocionar com a junção entre a dança e as músicas de John Cage. Os movimentos que desafiam as leis da gravidade, a flexibilidade e a leveza de seus dançarinos comovem e dão ao público um alento artístico. Os cenários, nunca monótonos, se passam em situações inesperadas, como um palácio vitoriano, uma floresta, um pátio europeu ou um estúdio repleto de cores vibrantes. É a prova de que a arte não necessita de um lugar. Isso é Merce Cunningham.

O esforço físico e a beleza dos movimentos também estão presentes, em cenas fechadas, principalmente dos pés dos artistas, que com o 3D carrega a pureza, a textura dos músculos e uma imagem representativa de resiliência, algo que Merce precisou para chegar ao seu objetivo. Na Europa, por exemplo, teve que lidar com parisienses revoltados, que lançaram tomates enquanto seu grupo se apresentava. Entre suas frases dentro do filme, uma que chama a atenção é a de que ele não procurava uma interpretação do que estava sendo mostrado nos palcos “Isso é deixado para o público”, dizia. Kvogan compreende isso e não entrega juízo de valores ao que está sendo mostrado. E nem precisa.

Quando ele se aproxima de seu final a história se direciona para a influência de seu pioneirismo nos dias atuais. A preocupação de seus alunos em manter sua arte viva e como eles se dedicam para que isso seja possível. O artista criou até os seus 90 anos, idade em que faleceu, mas se depender dessas pessoas, suas coreografias atravessarão os anos sem qualquer vestígio de óbito.

Por fim, “Cunningham” vira uma experiência impressionante, um convite ao espetáculo e à mente de um dos maiores legados da dança moderna. É a prova de que documentários merecem uma atenção nas salas de cinema e podem trazer propostas diferentes para colocar seu público dentro de um ambiente imersivo e espetacular. É um filme que aguça os órgãos de sentido e desperta o interesse até por aquele que entrou na sala desprevenido, que ao subir os créditos (ou no fechar das cortinas) irá aplaudir como se estivesse vendo, de fato, o espetáculo de Merce Cunningham. E quem disse que não era?

 

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *