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Cry Macho: O Caminho para Redenção

O corpo, o mito

Por João Lanari Bo

Festival de Tóquio 2021

Cry Macho: O Caminho para Redenção

Parceiro: ‘Quantos anos você tem, Clint?’

Clint: ‘Faço 91 anos na segunda-feira.’

Parceiro: ‘O que você vai fazer?’

Clint: ‘Vou começar um novo filme.’

Parceiro: ‘O que te faz continuar?’

Clint: ‘Me levanto todos os dias e não deixo o velho entrar’.

Passam os anos e Clint Eastwood não para de filmar: seu mais recente output é um misto de road movie e filme infanto-juvenil, “Cry Macho: O Caminho para Redenção”, de 2021. O espectador desavisado, mesmo aquele indulgente com o realizador – dono de uma extensa obra, com altos e baixos, mas sempre com a narratio virtutis, como diziam os antigos – vai passar algumas dezenas de minutos para começar a entender qual o propósito do filme. Planos belíssimos do nascer do sol e planícies desérticas ilustram o desenvolvimento canhestro de um enredo meio inverossímil meio fantasioso, que se resolve quase como um conto de fadas. A história – baseada em livro homônimo – começa em 1979, com Mike Milo (Eastwood), cowboy e ex-estrela de rodeio, chegando no rancho de Howard Polk. Howard diz a Mike, você está atrasado: e Mike responde, para quê? A réplica é definitiva: para pegar suas coisas no armário e dar o fora, está demitido. A contração facial de Mike é sutil e amarga, sem passar recibo. Um breve corte mostra imagens do passado, uma queda violenta de Mike que deixou sequelas em sua coluna. Você não é uma perda para ninguém, arremata seca e impiedosamente o patrão. Novo corte para um ano depois, quando Howard procura Mike e pede um enorme favor – ir ao México e “sequestrar” seu filho, adolescente rebelde e aficionado de briga de galo, que vive com a mãe, festeira e a um passo do alcoolismo. A mãe, segundo o pai, “abusa” do filho – e Mike aceita, apesar da estranheza do pedido, constrangido por uma dívida pessoal com Howard. Chegando no México, as coisas parecem ainda mais obscuras: o garoto, Rafa, tem menos de 14 anos e não se dá com a mãe, que o acusa de violência e bebedeira. Ladeada por dois guarda-costas, como se fora uma narcotraficante, ela tenta atrair Mike para a cama! Diante desse exagero, adentramos o reino da imaginação – ok, a carreira de Clint nos mostra gradações bem dosadas de envelhecimento do corpo, mas daí que sua simples presença desperte desejos voluptuosos, no alto dos seus 91 anos, é too much. Corte e cai a ficha para o espectador.

Cry Macho: O Caminho para Redenção” é dos menores trabalhos na brilhante filmografia de Clint, mas nas dramatic licenses da sua performance encontramos registros de uma singular história do corpo: o corpo de Clint, naturalmente, inscrito no caudaloso conjunto de filmes em que atuou, e, sobretudo, nos que atuou e dirigiu. Não satisfeito com seu magnetismo sexual, ele arrisca um pugilato, monta e amansa cavalo selvagem, pilota carro em estradas de terra fugindo da polícia – e cativa uma relação afetuosa e paternalista com seu duplo, Rafa, o mexicano. Mexicanos, a longa alteridade que assombra o cinema hollywoodiano, presença incontornável nos faroestes (spaghetti ou não): mexicanos, a grande massa, muitos em em situação irregular (chamar de ilegal é incorreto), que povoa o mercado de trabalho nos EUA. Em tudo isso, o corpo de Clint, combalido pela idade, atravessa incólume, magro, um pouco curvado, estatura contraída. Mas é um corpo que se aproxima da desaparição: o velho vai entrar, não dá para evitar. O recurso da fantasia infanto-juvenil, afinal um gênero cinematográfico, funciona como dispositivo que sublima a narrativa e sublima o próprio Clint Eastwood e seu corpo. No final, ele acha espaço para dar lição de moral ao garoto: a coisa machista é superestimada, afirma, uma reflexão que se pretende carregada de sabedoria – mas que soa irônica, partindo de uma das estrelas machistas do cinema nas últimas décadas. Um pouco antes, teve de ouvir: você fica muito bravo, Rafa diz a Mike, não é bom para sua idade.

Clint Eastwood é conhecido pela atmosfera relaxada que imprime nas suas filmagens, desde 1967, quando fundou a produtora Malpaso, e pela longa associação com a Warner Brothers, que financia e distribui seus filmes, sempre com total liberdade para Clint. “Os Imperdoáveis”, de 1992, e “As Pontes de Madison”, de 1995, consolidaram seu status artístico junto à crítica, dentro e fora dos EUA. Suas principais referências são Don Siegel e Serge Leone, dois excelentes diretores com quem trabalhou em inúmeros filmes. “Cry Macho: O Caminho para Redenção” é mais uma etapa nessa caminhada fora do tempo que nós, mortais, conhecemos: me levanto todos os dias e não deixo o velho entrar.

3 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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