Sonho de RuiSonho de Rui

Um ruivo contra o mundo

Por Fabricio Duque

Mostra Estreias Cariocas e Semana Cavídeo 2019

 

Talvez a verdadeira essência do cinema esteja mesmo nas obras de baixo orçamento, que, por paixão incondicional e crença absoluta de seus realizadores, consegue  “tirar leite de pedra” e potencializar ao máximo a forma condutora mitigada de opções. Sim, pouco dinheiro estimula consideravelmente a criatividade. Como em “Sonho de Rui”, novo filme de Cavi Borges e Ulisses Mattos (também assumindo a função de roteirista), em que o conceito-premissa pulsa mais que a própria forma técnica.

“Sonho de Rui” pode ser considerado um spin off do espectáculo Os Ruivos, criado pelo ator Pedro Monteiro, que aqui, logicamente, continua a ser o protagonista Rui. A peça de teatro é uma sátira espirituosa e bem humorada sobre o mundo existencial dos ruivos. Já o longa-metragem busca importar os mesmos elementos e adicionar narrativas para o excêntrico Rui, que tem uma obsessão pelo ator americano Chuck Norris (o “invencível” lutador que “ganha” com “setenta e dois cromossomos” dos “vinte e três” de um simples ser humano.

Toda a força do filme está em seu roteiro, que caminha pelo humor absurdo e existencialista, que importa cúmplices e defensivos sarros-picardia da “raça ruiva” (“arrotos de Fanta” com apenas “dois porcento no mundo”) e que consegue afastar por completo possíveis tendências-consequências clichês já características para contar a história de um tímido ator que herda um apartamento milionário de seu pai e decide colocar a venda para realizar o seu sonho. “O vermelho é o novo preto”, diz-se, partindo a uma metáfora quando se “enferruja” física e visualmente a casa.

Rui quer estrelar um remake (uma refilmagem tupiniquim falada em inglês, porque “Chuck Norris fala inglês, e Mel Gibson fez Cristo em Aramaico”) de um filme famoso de Chuck Norris (um “homem completo” também ruivo e que “era apenas um menino tímido, que não sabia de nada na escola”) lutando no Vietnã, “Braddock – O Super Comando”, de 1985, dirigido por Joseph Zito, que pela teoria crítica do filme possa ser uma “inspiração” a “Rambo 2”, ainda que tenha vindo primeiro.

“Sonho de Rui” é o “sonho de todos”, diz Pedro Monteiro em uma entrevista exclusiva para o Vertentes do Cinema. E conduz seu espectador a uma atmosfera cômica, sensorial, orgânica e fantasiosamente realista, à moda semelhante dos filmes de Woody Allen, gerando nosso riso solto, espontâneo e inteligente, sem ser “boboca”. É um filme de esquetes, por íntimos e estranhos momentos que representam “falhas na Matrix” da própria vida também estranha, idiossincrática e surreal. E de simbolismos aos “Ruivos”.

O longa-metragem prova que nem toda comédia precisa ser de “humor popular para a Classe C”. Assim como o diretor novaiorquino mencionado acima, aqui o objetivo almejado é a tradução comportamental, fazendo graça com respeito. Com os transtornos obsessivos e as esquisitices, mais parecidos como loucuras sociais, e diferentes de “crendices, estas ignorantes”, “Sonho de Rui” representa uma jornada de renascimento. De perseverar na luta. De “deixar a porta aberta” para que o novo venha. De nunca deixar de acreditar no próprio sonho, um impulso esperançoso, indicativo e sobrevivente. De ir de encontro aos pessimistas realistas. É “Aires versus Sagitário”. E que “igual ele, os Ruivos podem ser um remake”.

Esta é uma típica obra de cinema de guerrilha, em que as dificuldades do processo motivam ainda mais sua realização. E por uma grande piada-referência aos “concorrentes” de Chuck Norris: Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone e até mesmo Steven Seagal, com perspicácia coloquial, apesar da mudança do tom, que ora adquire um encenado anti-naturalismo (esta talvez outra crítica, visto que tudo talvez seja uma atmosfera lúdica e sonhadora).

“Sonho de Rui”, como foi dito, é um filme de roteiro (pelas mãos cirúrgicas de Ulisses Mattos) e de atores, que buscam o timing perfeito a fim de construir verdades com a realidade. Cada um imprime um status quo. Uma verosímil caricatura da própria vida. Há o amigo gay, a garota interesseira, o personal trainer, a advogada, os clientes que visitam o apartamento, todos constroem um amador naturalismo. Com Pedro Monteiro, Augusto Madeira, Cadu Fávero, Pedroca Monteiro, Rodrigo França, Gabriela Estevão, incluindo participações especiais da produtora Marina Trindade e do crítico de cinema Rodrigo Fonseca, o longa-metragem cumpre plenamente seu propósito de divertir com qualidade e de se manter como um expoente da categoria de baixo orçamento.

Trailer

https://youtu.be/dF84Oy170hQ

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