Crítica: Um Amor Inesperado

Por Gabriel Silveira

Saudades da morena

Por Gabriel Silveira

Durante o Festival do Rio 2018


“Um Amor Inesperado”, de Juan Vera, vem se fazer uma experiência quase que cômica desde seu princípio, quando nos damos de encontro com os queridinhos alternativos Ricardo Darín e Mercedes Morán se entregando por completo àquela encenação de tele-film hispano-hablante. Confesso que, assim que entrei na sessão (com quinze minutos de atraso), bufei em frustração ao ver todo aquele grupo de argentinos elitistas discutindo relações e cantando declarações de aniversário ao som de Fogo e Paixão de Wando sobre uma montagem de fotos de família feita no movie maker (tá bem, isso até que foi gostoso de assistir na telona).

Pensando duas vezes, acredito que a imagem montada acima sintetiza de uma maneira bem pura o espírito toda da coisa, faltando só um vale de liberação da crítica. No entanto, apesar de todo embasamento de querer ser Woody Allen latino parecer desestimulante, Darín e Morán compartilham uma química tão sincera em cena que o formalismo televisivo chega a ganhar uma dimensão formal e dramática admirável. Abordando as temáticas discutidas com um conservadorismo que tenta ser liberal de uma maneira quase que fofa.

A problemática inicial de Marcos (Darín) e Ana (Morán) dá-se no encontro com o esmaecer da paixão.Com quase os dois pés na terceira-idade, ambos realizados em suas respectivas carreiras e o quarto vazio de seu filho que largou a faculdade para fazer “dar uma de hippie” mundo a fora — parece não haver nada de errado — a confiança no outro anda firme e forte, cada um sabe do sono e da fome do outro como as palmas de suas próprias mãos — não há nada de errado — só não há nada de novo. O conformismo vêm a tornar-se um zumbido em seus ouvidos, e nesse, o quarto vazio e escuro da casa só faz eco. Nessa agonia do conformismo, os dois acabam decidindo que o melhor é o retorno ao desconhecido. Neste primeiro momento, Juan Vera segue uma amena rigidez formal na encenação que, ao mesmo tempo que exprime a condição do casal, encontra uma leveza digna da passiva e despreocupada soberba da pequena elite argentina.

Os dois decidem efetivar o fim em questão, tomam seus rumos à vida de solteiro, onde o que vinha sendo uma construção bem orientada dos ensejos dramáticos acaba caindo por terra, de cara em uma grande bagunça. O que havia de ameno na encenação do primeiro ato vinha cheio de mérito por conseguir manter uma tonalidade suave que condizia com a vontade da obra de entrar no espírito de comédia romântica para a meia-idade, mantinha-se o ar aromatizado da sala de estar dos pequenos burgueses em perfeita harmonia com suas piadas de sexualidade enrustida. Já no momento de transição e adaptação à solteirice, Vera resolve esbanjar-se em um desapego à encenação em busca do maior número possível de punchlines em sequências de quase-esquetes das primeiras séries de novos encontros amorosos de cada ex-parte do casal. Toda a estetização harmônica que havia dentro da primeira parte acabou perdendo-se na tradução ao estado mais anárquico da série de dates intercalada por conflitos dramáticos internos da dupla de protagonista a respeito de seus estranhamentos com a ausência, o que acaba sendo mal contextualizado quando montado paralelamente às sequências cômicas que afogavam-se em suas estetizações de sets genéricos de campanhas publicitárias de lista A.

O que segue, após cada um dos dois sossegarem com parceiros fixos, duradouros e estáveis é uma tentativa de retorno àquela encenação da primeira parte do filme, mas, agora, seguindo para entregar o estado de desgaste que cada uma das personagens acaba desaguando com seus novos parceiros, e não funciona, Vera acaba não mostrando nada de novo. É apenas quando o roteiro começa a reabrir de fato as portas para a reconexão de Marcos e Ana que o charme daquela vontade formal do início começa a florir e dar gosto em todo aquele momentum do reconhecer.

O que acontece durante o filme todo parece mesmo a realização das vontades morais de todo indivíduo médio de meia idade que anseia a quebra de diversos paradigmas e taboos de seus códigos conservadores-fantasmas, que se passam por intransigentes verdades absolutas em seus meios sociais. Eles vão lá, acabam com o matrimônio de décadas e re-experimentam todos aqueles antigos prazeres sob a nova ótica da idade, negando toda a moral em questão, para no fim, afirmarem que o bom mesmo é ficar juntinho de quem te conhece, te aguenta e te quer. O que há de mais adorável no conformismo.

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