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Crítica: Tungstênio

O Brasil também sabe adaptar quadrinhos

Por Vitor Velloso


Histórias em Quadrinhos são expressões artísticas que sofre bastante preconceito do grande público que resumem essas narrativas em histórias infantis ou super-heróis. Para quem possui algum interesse nessa mídia, entende que se trata de uma verdadeira identidade única de expressar um conceito através da linguagem. O Brasil possui um mercado de quadrinhos independente, extremamente vasto e rico. E suas histórias possuem um forte enraizamento regionalista, além de perpetuarem uma tradição em extinção, a história falada.

A trama busca contar a história de diversos personagens envolvidos numa situação específica, cada em sua perspectiva. Temos dois homens pescando usando bomba, um ex-militar, Seu Ney (José Dumont) se irrita e manda chamar ajuda, utilizando Cajú (Wesley Guimarães) como escudo para resolver os problemas que o aflige. É aí que entra Richard (Fabrício Boliveira) que vai até o forte resolver essa situação dos pescadores.

O novo filme de Heitor Dhalia, “Tungstênio”, busca a adaptação da HQ homônima de Marcelo Quintanilha, que conta a história de múltiplos personagens. Dhalia já possui uma carreira renomada “Serra Pelada” e “Cheiro do Ralo”, por exemplo. Este último também foi uma adaptação do mesmo autor. O diretor gosta de utilizar o voiceover para marcar alguns pensamentos dúbios que a narrativa esbarra. Este recurso é guiado através da voz de Milhem Cortaz, que constrói um personagem que está disposto apenas a ver o caos e promover a discórdia. O ator que já é conhecido por seus personagens canastrões e de moral extremamente duvidosa, repete a dose aqui, o carisma de Milhem é tão brasileiro que não importa quantas vezes ele fará isso, eu nunca irei cansar.

Se você convida alguém para a sua casa, esta pessoa, obviamente, irá seguir certas normas sociais visando um certo distanciamento, criado pelo grau de respeito pelo local que não o pertence, é óbvio. Mas isso não quer dizer que tudo que a pessoa disser na sua casa, você deve concordar, ou exigir que diga de uma forma que não fuja dos padrões arcaicos, decadentes, dos dogmas e valores de sua família. Qualquer forma de enquadrar ou limitar, mais que o normal, a expressão de alguma pessoa, é censura. A infantilidade desta atitude nos lembra a clássica frase: “A bola é minha”. Censurar alguém apenas porque esta pessoa está na sua casa/no seu veículo, é no mínimo, estúpido.

O personagem de Zé Dumont age a partir da lógica acima, ele cerca os pensamentos alheios, exigindo que os outros se adequem a ele, não o contrário. Assim, seus preconceitos ficam cada vez mais expostos ao longo do filme, sua herança fascista, que ele brada com muito orgulho, escorre em sua saliva como um cão sarnento pronto para contaminar o próximo do ódio mais gratuito que existe, que surge de uma falta de confiança quanto ao seu próprio pensamento. Uma timidez intelectual que sofre sua reação a partir da violência e da explosão de nervos. Enquanto Seu Ney, grita com um negro favelado, mandando-o fazer algo, levantando sua patente e impondo uma ordem, o vemos, mais a frente, recuar diante de algum tipo de resistência. Pois, reação violenta por julgamento pré concebidos, advindos de um moralismo pré-histórico, é sinal de acefalia.

Já Richard, é um policial de moral duvidosa, que aceita pequenos serviços enquanto está de folga. Ele não se vê como corrupto, mas sim como alguém que precisa fazer aquilo que ninguém quer. Ele está disposto a sujar as mãos e não tem limites de poder para conseguir o que deseja. E esse é o tom do filme, no fundo, todos os personagens são reprováveis. Incluindo a namorada de Richard, que aceita seu comportamento agressivo e suas atitudes violentas, sendo complacente com seus erros, sempre o perdoando e acreditando que é a última vez. O longa busca uma brasilidade que mantém sua essência em cada esquina, a malandragem das nossas relações sociais. Esse jogo de poderes e desigualdades que rege a nossa sociedade, entra como tema funcional da narrativa. Esse coronelismo inerte da estruturas ideológicas, leva uma discussão ética à tela: “O poder do Estado vai até aonde?” e “Até onde eu posso intervir para suprir aquilo que o governo não faz”. O que gera esse grande caos que se vê.

Trata-se de um filme moderno e divertido, sarcástico na medida certa, que usa seu cinismo com precisão cirúrgica a fim de atingir seus objetivos. E o maior deles, é desconstruir a história, através dos próprios personagens. A montagem anacrônica, salta para frente e para trás no tempo, buscando ilustrar algum fantasma do passado, ou servir de didatismo expositivo para um determinado diálogo. Enquanto o cinema natimorto brasileiro, tenta forças através de pequenos projetos que aparecem paulatinamente ao longo dos anos, “Tungstênio” mostra uma evolução de Heitor e prova que é possível ter autoria em cinema comercial, ainda que dentro de alguns padrões.

4 Nota do Crítico 5 1

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