Tudo o Que Tivemos

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O drama do esquecimento

Por Vitor Velloso


Dramas familiares são produtos realizados em quantidades estratosféricas, Hollywood e suas máquinas de produção em massa, despejam no mercado inúmeros pastiches de suas próprias produções. Com uma raridade maior que o aceitável, alguns desses filmes possuem algo que o diferencie dos demais, seja em sua narrativa, drama ou linguagem. A necessidade de compreender a contemporaneidade nestes dramas é primordial no sucesso dos mesmos, pois, ainda que a trama seja composta por questões basilares anacrônicas, o tempo e o espaço onde aquilo ocorre reflete diretamente na abordagem de sua estrutura.

Dirigido por Elizabeth Chomko, “Tudo o que tivemos” é um longa que conta a história de Bridget (Hilary Swank), que retorna a casa da mãe Ruth (Blythe Danner), após receber uma notícia que esta se encontra desaparecida, e possui Alzheimer. Lá reencontra seu irmão Nicky (Michael Shannon) e seu pai Burt (Robert Foster), esta reunião familiar em um momento delicado irá ser a espinha dorsal da história.

A trama está longe de ser original, a estrutura também não se reinventa, porém, os personagens conseguem sustentar a projeção através de suas complexidades. Nicky por exemplo possui algumas camadas interessantes de serem debatidas, que são ampliadas pela atuação de Shannon. E toda essa proposta dramática à cada um dos núcleos familiares, constrói uma dinâmica bastante funcional, sem ser expositiva a ponto de ser óbvia e compreendendo os limites da dramatização deles de acordo com sua influência na narrativa. Com exceção de Emma (Taissa Farmiga), filha de Bridget, que possui pouco tempo de tela e uma tentativa de criar algo maior à personagem, que não funciona, pois não há espaço para ela dentro da progressão do filme, tornando-a um peso ao dinamismo.

Elizabeth Chomko cria uma proposta de direção que busca simplificar a misancene, evitando grandes artifícios, pelo contrário, a formalidade da obra é bastante convencional. Mas essa atitude, facilita o produto à ser mais comercial, que claramente é uma intenção, pois o elenco possui certo prestígio perante o público. A fotografia se fixa em uma abordagem quase neutra, ela é presente e nitidamente constrói os planos através de seu leve sombreado, mas evita chamar atenção aos mecanismos, buscando uma naturalidade maior. O dinamismo citado acima é composto por alguns fatores, além do roteiro funcional e parcialmente complexo, dramaticamente, os atores conseguem fazer o texto fluir bem diante da tela, mas sendo acompanhados por uma montagem que cadencia bem as viradas na narrativa e as interpretações. Essa harmonia é perceptível no resultado final.

Apesar da produção industrial, pequenas características conseguem dar algum grau de autenticidade à obra, grande parte graças aos atores, que esforçam-se em manter o roteiro com questões pessoais bastante palpáveis, dessa forma mantendo um ar multifacetado durante toda a projeção. Bridget e Nicky possuem os maiores desenvolvimentos, onde é possível que o espectador sinta parte de suas dores e dúvidas. Ainda quando erram, compreendemos suas ações.

Infelizmente, a força que víamos em partes menores da projeção vai se perdendo com a chegada do terceiro ato, onde clichês e comodidades na narrativa se sobressaem. Todas as vantagens do projeto vão por água abaixo ao ceder a todas estas convenções do mercado cinematográfico. E existe uma questão frustrante ao se aproximar do fim, pois a construção dramática que havia sido estabelecida, funcionava com uma força bastante única. Discussões morais da família, questões de internação forçada etc. nos atrai com facilidade, tomamos partido e ponderamos opiniões contrárias. O envolvimento que o espectador tem com alguns personagens, de acordo com questões de identificação direta, torna-se particularmente sólido. Assim, assistir essa ligação se desfazer com uma necessidade de acelerar o encerramento e de manter o padrão do gênero, cria uma experiência muito inquieta.

E assim a estreia de Elizabeth Chomko na direção e roteiro, é interessante, consegue ser uma agradável projeção, até esse entreguismo corriqueiro ao fim. É possível imaginar uma questões de produção por trás dessa decisão e não partindo da própria diretora.

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