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Uma Bem Suavizada Anarquia Existencialista

Por Fabricio Duque

“Três Lembranças da Minha Juventude”, de Arnaud Desplechin (de “Reis e Rainha”, “Um Conto de Natal”, “Terapia Intensiva: Jimmy P.”) reitera a estrutura cinematográfica do diretor, que é a de mesclar o classicismo da cinefilia com a modernidade “vintage” do comportamento juvenil-adulto francês. Aqui, épocas vivenciadas são intercaladas em uma jornada, definidora e terapêutica de uma vida (da “ida porque tem que tem que ir”), ao contar a história de Paul Dédalus (o ator Mathieu Amalric), que questionado pela atual namorada sobre seu passado, ele inicia ua sequência de relembrar de três fatos que determinaram sua vida, por uma narrativa de elipses curtas e de edição rápida.

A primeira é sobre sua infância, que deixou traumas por causa da péssima relação com a mãe, a loucura de sua casa, o internato, as tias lésbicas, o pai que o batia (mas não “sentia nada”), o irmão espião, o estímulo da violência na bicicleta. Ele aprende russo e começa a trabalhar no Ministério das Relações Internacionais. O filme é um road movie que viaja pelo mundo e por “causos” que Paul experimentou.

A segunda, sua experiência na Rússia, quando jovem militante aceitou ceder seu passaporte europeu para ajudar uma família local, homônimo na Austrália, antropólogo, a tia avô, a adolescência. Cinco anos depois, acordos com os judeus diferentes de “comunistas” e aventuras na Alemanha Ocidental. Livros, dinheiro, contrabando, suborno com cigarros, tudo em telas divididas, quase um “A Identidade Bourne” com a atmosfera de Abdellatif Kechiche e de François Ozon, pela nudez espontânea.

E a última, a paixão por Esther (a atriz Lou Roy Lecollinet), garota liberal e misteriosa em um “mundo próprio”, que atravessa sua vida em diversos momentos, ora o seduzindo, ora recusando sua presença. Entre muitos livros, “barba na pele de anjo”, cigarros, mistérios, a músicas de Marvin Gaye e do The Cure, Esther é feliz do modo dela, com sua retro-alimentada depressão, e ele acostuma-se a esta natural co-dependência.

“Três Lembranças da Minha Juventude”, exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2015, passa por acontecimentos sócio-políticos (como a queda do Muro de Berlim), com um pano de fundo romântico, o filme potencializa a característica típica francesa que é o dramaticidade existencial com investidas ao sensorial climático (como o vento encenado e fantasioso). Tudo é questionado com enérgica verborragia: morte e a repetência dos “passos do pai”.

O longa-metragem é, acima de tudo, uma ode nostálgica à anarquia, tentando revisitar subjetivamente uma revolução. Mas que se perde quando o mais determina o menos. Quando a impulsividade passional da “posse altiva” do querer, fator que atinge a todos os diretores, sem exceção. Só que neste caso, ainda mais, visto e comprovado a excessiva necessidade, quase prepotente, ao resultado contextual que precisa conjugar filosofia com existência com cotidiano com individualidades sociais.

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