Crítica + Trailer: Os Últimos Dias de Copacabana Jack

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A Crônica de uma Cidade

Por Fabricio Duque

Integra a Mostra Estreias Cariocas


Integrante do gênero de suspense criminal, “Os Últimos Dias de Copacabana Jack” é, acima de tudo, um sugestivo conto sobre a solidão no bairro mais famoso do Rio de Janeiro, Copacabana. É um filme sobre a arte efêmera do existir, onde demônios comportamentais manifestam-se repetidamente como um latente vício, um ímpeto instintivo e uma necessidade vital-fisiológica.

O longa-metragem é projetado pela contemplação psicológica do instante vivido. O protagonista (o ator Armando Luiz Pahl), um simples indivíduo social e professor, que apenas ouve e executa ações sem falas, passa sozinho seu tempo entre intrínsecas idiossincrasias, rotinas condicionadas e uma força que o faz assassinar vítimas. Será ele apenas um “fruto do meio”? Um ser que busca apenas sobreviver e saciar sua fome? Será que o livro “Uma Luz nas Profundezas do Mar”, de Rodrigo de Queiroz Campos Lopes, que aborda um novo conceito de magia distribuído no intuito de criar um universo completamente novo, e explicitamente inserido à trama como elemento cenográfico, consegue explicar os verdadeiros propósitos confusos da alma deste humano em perturbação mental?

“Os Últimos Dias de Copacabana Jack” conduz o público a um exercício de linguagem, uma experiência conceitual, a fim de naturalizar os crimes cometidos, os integrando completamente a um espontâneo e orgânico ambiente, captado em fragmentos rotineiros e documentais da vida real (e de como ela é) acontecendo, com suas idas e vindas e suas notícias ouvidas de sensacionalistas programas que potencializam desgraças em radinhos de pilha. Há aqui uma semelhança estrutural com o filme de Erik Rocha, “Transeunte”, que também mergulha em intimistas sentimentos para traduzir o tudo com o nada, e com “As Noivas de Copacabana”. E por que não com “A Casa Que Jack Construiu”, de Lars Von Trier, pela temática referencial assassina?

Copacabana, bairro onde acontece de tudo, é cenário, e personagem, dessa história que acompanha seis dias na vida de um sexagenário solitário que vive em um pequeno apartamento no local. Quando a mídia começa a noticiar o aparecimento de grandes pacotes manchados de sangue nas ruas do bairro, a população, alarmada, passa a acreditar na existência de um “Jack, o Estripador” local que está assassinando as prostitutas da Avenida Atlântica. Os hábitos do sexagenário vão transformá-lo em bode expiatório e principal suspeito dos crimes.

Baseado na história do artista plástico Artur Barrio, que na década de setenta “despejou” “trouxas ensanguentadas” pelo Rio de Janeiro e Belo Horizonte, como uma forma de protesto contra a política governamental, o longa-metragem almeja construir uma sensorial ambiência estética, com suas fusões que mitigam a separação entre lembrança, realidade, sonho e projeções esquizofrênicas. É a crônica de uma cidade. De uma Copacabana em que tudo “pode acontecer”, como um portal tridimensional a um absurdo mundo paralelo, entre acordes de “Bed are Burning”, do grupo Midnight Oil.

Há também um que do movimento Cinema Novo em “Os Últimos Dias de Copacabana Jack”, quando o conceito é mais importante que sua forma, e um que da estética Belair, quando sua forma une-se à premissa que se deseja traduzir. É uma ficção que cria a ilusão do documentário, à moda do filme “O Outro Lado da Rua”, de Marcos Bernstein, e ou de “Berenice Procura”, de Allan Fiterman. Os instantes são “assaltados” pelos acasos e situações do redor. E propositadamente amador ao dar voz a transeuntes que se tornam atores por um momento. Para depois retornar suas rotinas. “Tudo está corrompido e dominado”, diz-se.

É uma obra visceral. Em putrefação. Por um “facínora” (um que de “Simon Killer”, de Antonio Campos), comparado, pelos outros, ao mais famoso dos assassinos, Jack, o estripador. Mas nós, que somos convidados a participar de sua vida (e conhecer um pouco de seu passado por memórias esfumaçadas), podemos expandir definições, como por exemplo, a um canibal moderno, metafisicamente antropofágico. Cada um dos moradores o julga por uma causa, como a “ele mata por não estar pegando ninguém”, e ou “comete estes crimes porque quer copiar seriados televisivos de crimes”. Aqui, é também uma análise social sobre a paranoia terrorista do mundo moderno, que cada vez retorna mais ao medo e à idade das trevas. É o pânico que assola a “Princesinha do Mar”.

“Os Últimos Dias de Copacabana Jack”, do diretor Rob Curvello, carioca e morador do bairro ora didático, ora “hereditário”, é muito mais que a obsessão sociopata de um “homem sem escrúpulos” de “personalidade antissocial”, que guarda com orgulho recortes de jornais de seus feitos. Sim. O filme é sobre medir forças em um jogo de manipular o sistema e não ser pego. É uma crítica à polícia que “sempre erra”. Sua estrutura pode soar amadora, despretensiosa, e de imagens soltas, apenas por uma colagem fragmentada, mas não. O espectador precisa ler além das entrelinhas, porque é no subtexto que a verdade e propósito existem. Um homem, as notícias e os fatos. Mistério e suspense nas ruas de Copacabana.


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