Crítica: Superpina: Gostoso é Quando a Gente Faz!

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Digressões e sexo com Jean

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2019


A ideia de transformar um curta em longa-metragem sempre me parece problemática. Não pela traição do formato em si, mas se a ideia foi concebida em um tempo reduzido, normalmente, há um porque. É claro que em certos casos o longa vai estender de forma avassaladora aquilo que o curta fez, gerando uma recompensa válida ao espectador. “Elon não Acredita na Morte” é um bom exemplo, já que “Tremor” parecia muito solto e pouco desenvolvido quando foi lançado. Aqui, Jean Santos procura uma maximização da estética do curta e ampliar determinados horizontes, mas infelizmente não se encaixa tão bem quanto os 25 minutos do original.

Dirigido por Jean Santos, “Superpina: Gostoso é quando a gente faz!” chega na Mostra Olhos Livres em Tiradentes com certas expectativas, já que seu curta havia cativado grande parte do público ali presente. Pessoalmente, a transposição não funciona de maneira tão carismática quanto anteriormente havia sido. Tive muitos impasses em me conectar diretamente com a obra, mesmo plasticamente. E os comentários sociais propostos não motivaram. A estrutura parece divagar entre sexo, cor e mercado. É óbvio que esta redundância não é de todo sem sentido, já que são os elementos mais presentes, mas as substâncias estavam pouco harmônicas, o que gerou algumas reações diversas ao sair da sessão, alguns elogiavam exatamente pelo desconforto estrutural, outros pelo formalismo de Jean e uma parcela não se conectou com o filme, infelizmente eu faço parte desta última.

As intenções são boas e o humor não cai na pieguice, sabe onde pisa e até onde pode ir, não à toa possui momentos genuinamente engraçados. O dispositivo que Jean utiliza para gerar essa comicidade sem forçar a barra, é explorar essa sexualidade exacerbada do povo latino, neste caso o brasileiro, como gatilho à piadas e comentários ácidos acerca de político e/ou moralismo, e em tempos onde ambos se confundem “Superpina” torna-se uma resposta quase necessária a tudo isso, sendo um ode ao que podemos chamar em 2019, (por mais absurdo que seja) de anti-brasilidade, leia-se anti-ufanismo-delirante. Claro que me refiro aqui à usurpação da bandeira nacional, como símbolo de um ideal e mitificação de uma sociedade que a parcela eurocêntrica considera normal ou aceitável. No longa, não vemos estes dogmas preguiçosos rotular os personagens ou a narrativa, simplesmente acompanhamos o fluxo daquela história.

A misancene que o diretor propõe é dúbia, ora parece remontar uma espécie de escatologia cômica, algo próximo a “CineHolliudy”, em outros momentos se torna uma sequela sensorial. Não digo sequela em tom pejorativo, pelo contrário, essas quebras são mais que necessárias a determinados projetos cinematográficos. A questão é, vemos todas aquelas cores, movimento e sexo quase que de voyeur. Essa distância que há entre o objeto e o espectador é uma continuação da encenação do resto da obra, mas se estas digressões são tão intensas e “imprevisíveis”, porque esse pudor de nos colocar no meio da ação? A experiência sensorial seria inegavelmente mais intensa. Ainda que esta não seja a intenção de Jean em compor essas cenas, a construção anterior que ele realiza, possui problemas de condução e ritmo, já que permite que o público sinta algo que não será recompensado de maneira direta.

Reconheço os méritos que o projeto possui, além dos comentários acima, a fotografia digital que vemos em tela, possui uma artificialidade que casa perfeitamente com a proposta da narrativa. Essa ideia da farsa cênica potencializada pela luz, corrobora a teoria de que a digressão das cenas de sexo são necessárias e inevitáveis. Ainda assim, esses feitos alcançados durante a projeção não são o suficiente para montar quase uma hora e quarenta de louros ao “Superpina”.

Pequenos conceitos cinematográficos servem de subversão à realidade daquele universo, o plano sequência que vai cercar uma mulher no mercado que está furtando os produtos, revela que a mesma leva em sua bolsa uma quantidade que mal caberia em um carrinho de compras. Esse arcabouço de pequenos dispositivos que ajudarão a tencionar a trama à uma fabulação quase lírica, são bem utilizados em momentos específicos como este, mas torna-se muleta e fica quase repetitivo em todo o resto. No fim, não é uma experiência desonrosa ou desprazerosa, mas irá demandar do espectador uma disposição maior que o normal em embarcar nos estilhaços da história. Comigo não funcionou.

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