A questão militar no Brasil

Por Vitor Velloso

Durante o É Tudo Verdade 2019


“Quem esquece o passado está condenado a não ter futuro”. A frase é terrível para se iniciar essa crítica (é verdade), mas seu uso é proposital. Um retrocesso monstruoso a Segunda Guerra Mundial se faz presente na história brasileira, onde vemos aquele eleito com arminhas de mão dizer que é possível perdoar o holocausto mas não esquecer, terminando com a frase que inicia este texto. Nesta frase isoladamente vemos alguma razão diante de nossos olhos, ainda que ela não seja cumprida, já que seu chanceler decidiu negar a ditadura militar no Brasil, assim como seus seguidores que flertam com uma cegueira histórica preocupante. E o mesmo militarismo que tanto é louvado por estes indivíduos é o cerne das problemáticas que enxergamos durante o documentário “Soldados da Borracha” de Wolney Oliveira, onde é esclarecido que o exército brasileiro escravizou cinquenta e cinco mil pessoas (trinta mil morreram em serviço), mantendo uma dívida histórica com cada um dos soldados e suas famílias.

O ponto de abordagem que Wolney decide tratar envolve as entrevistas diretas com alguns dos sobreviventes do genocídio promovido pelo exército, que atualmente são aproximadamente dez mil. Ele coleta relatos de cada um acerca das dificuldades enfrentadas durante as expedições à Amazônia, onde eram enviados como seringueiros no intuito de abastecer às necessidades de borracha no front brasileiro que estava na Europa, apoiando-se em imagens de arquivos, o que gera um exercício didático e objetivo. Desta maneira sua manipulação dos materiais se dá através de uma adição direta das entrevistas e vai ilustrando passo à passo como foi construído esse processo de escravização, com documentos, fotos, contratos que mostram os salários e os benefícios que cada um teria, rotas de transporte etc.

E seguindo o histórico de nossas forças armadas, no que tange assuntos explicitamente políticos, o roubo foi generalizado, a alimentação destes soldados da borracha era precária, o treinamento inexistente e o salário não existia, e quando era hora de pagar, alguns militares decidiram pôr fim a vida do trabalhador. Dentro de todo este cenário que o documentário irá girar, por isso, ele acompanha historiadores, pesquisadores e um biógrafo de Getúlio Vargas para esclarecer politicamente o momento onde tudo se iniciou e a hipocrisia do governo que recebeu uma infinidade de dinheiro dos Estados Unidos a fim de receber ajuda durante os conflitos na Segunda Guerra. E de fato receberam, os seringueiros foram fundamentais no sucesso dos norte-americanos durante o conflito, mas a história que não é contada, a que não está no retrato, é a de quem foi de aço nos anos de chumbo (varguistas).

Em determinados momentos, essa objetividade torna-se um ponto de âncora da estrutura do documentário e mantém-se um pouco repetitiva já que o intuito informativo (leia-se denúncia) de grande parte da projeção parece preparar terreno aos seus momentos finais, onde irá ao coração da burocracia política brasileira, a Câmara dos Deputados, para acompanhar a discussão sobre o pagamento destes heróis nacionais. Ainda que seja brevemente repetitiva esta forma implementada pelo diretor, ela se mostra bastante eficaz em nos aproximar de cada um dos sobreviventes e criar uma empatia direta que se justifica na montagem, já que acompanhamos esta viagem à Brasília e vemos as reações de cada um com a decisão pouco justa.

Há pequenas questões de reflexão sobre o longa quanto à sua forma final, que devem ser discutidas, exemplo o breve momento onde assistimos aquelas pessoas comentarem sobre suas casas atuais e as dificuldades de pagarem as contas. O momento é interessantíssimo, mas falta um aprofundamento maior quanto a essa questão, pois vemos sua situação atual, porém escutamos pouco acerca do período entre 45 e o hoje, que é extremamente relevante na narrativa dessas pessoas.

Mas o momento catártico ocorre mais próximo ao fim, quando escutamos o discurso de um dos soldados da borracha, que comenta sobre a decisão de pagar vinte e cinco mil a cada um, revelando que acredita ser uma derrota, não apenas pela dificuldade que passaram durante a vida inteira pela situação onde o exército abandonou eles, mas também por tratar-se de um valor irrisório se comparado ao salário de cada um dos deputados e parlamentares ali presentes, culminando na frase “esses vinte e cinco mil é o que vocês gastam no café da manhã”. Um herói nacional, antes e hoje.

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