A verdade os libertará
Por Fabricio Duque
Durante o Festival de Berlim 2018
Muitos indivíduos sociais acreditam na máxima de “o que os olhos não vê, o coração não sente”. Baseado nisso, sistemas governamentais buscaram apagar a História a fim de “proteger” novas gerações. No filme “Labirinto de Mentiras”, de Giulio Ricciarelli, jovens alemães sofreram pós nazismo uma guerra interna do esquecimento sobre os horrores cometidos no campo de concentração de Auschwitz. E agora, no documentário “O Silêncio dos Outros”, em questão aqui, a geração atual não conhece sobre a ditadura, com foco na espanhola, chilena e argentina.
Exibido na mostra Panorama do Festival de Berlim 2018 e produzido por Pedro Almodóvar, “O Silêncio dos Outros” é sobre as vítimas de Francisco Franco (ditador durante quarenta anos) e Augusto Pinochet (“líder” chileno). Um morreu em 1975. O outro em 1990. Os dois “ganharam” festa popular. O filme apresenta semelhanças com a estrutura narrativa de “Torre das Donzelas”, de Susanna Lira sobre as mulheres que lutaram na revolução brasileira, por levá-los a suas prisões. E sobre a lei da “anistia que permitiu libertar todos os crimes”, inclusive de seus torturadores.
Dirigido por Almudena Carracedo e Robert Bahar, “O Silêncio dos Outros” aborda o lembrar, por uma narração que diz: “Quem nasceu depois de Franco não sabe o que aconteceu realmente, os colégios não ensinaram, os pais não contaram e agora não podemos contar a nossos filhos porque não sabemos”. Tudo começou e 1936 com a Guerra Civil Espanhola.
Por documentos e discursos históricos, a obra busca emocionar sem apelar ao sensacionalismo sentimental. Em que sobreviventes abrem o coração e se libertam da dor pela verdade. Sim, a verdade está lá fora e os libertará. E são confrontados a passar pela casa de “seus” torturadores (“personagens intocáveis”) e ou pelo relógio parado. E ou por uma senhora colocar flores no acostamento de uma estrada.
A narrativa arquiteta uma metáfora de poesia politica. Em que disparos “completam a obra do artista” escultor Francisco Cedenilla, que construiu monumentos estátuas de vítimas eternas no Vale do Jerte. Os testemunhos faz com que o silêncio dos outros seja interrompido pelos gritos engolidos.
“O Silêncio dos Outros” segue um grupo de vítimas em um intimista estudo de caso. O que querem? Justiça. A transparência da verdade. Mostra-se também os “fãs” de Franco, que fazem o cumprimento famoso de Adolf Hitler, um dos aliados, acreditando que o presidente era o “defensor do país e do povo”.
Em 1977 o parlamento espanhol aprovou uma Lei de Anistia que garantia a liberdade de todos os presos políticos e a proibição do julgamento de qualquer ato criminoso ocorrido durante a ditadura de Francisco Franco no país. O Franquismo assombrou a Espanha durante 38 anos deixando um imenso número de vítimas e parentes sem respostas. Os cineastas Almudena Carracedo e Robert Bahar foram atrás desses sobreviventes e, durante um período de 6 anos, entrevistaram pessoas como José Galantes, que hoje em dia vive muito próximo de seu torturador, e Maria Martín, que até hoje não conseguiu ter acesso aos restos mortais de seu pai, morto durante o regime.
“O Silêncio dos Outros” intercala épocas para costurar crítica, saudosismo, melancolia, confronto, incômodo e humanidade. Súplicas e anseios. É um resgate histórico e orgânico, ditado pela montagem, tanto que venceu o Prêmio Goya 2019 (o “Oscar espanhol”), além de Melhor Documentário. É sobre o reencontrar, perseverar na liturgia de nunca deixar seus mortos de lado. Uma homenagem enérgica física e espiritualmente definidora à memória de um povo.
Ainda que o mundo tenha mudado, esses representantes investem suas vidas à proteção do anti-nazismo. Falar também é a melhor forma terapêutica cognitiva de expurgar demônios internos. De perpetuar a dor e as palavras tanto tempo aprisionadas no silêncio.
“O Silêncio dos Outros” é muito mais que um documentário sobre ditadura. É sobre a voz. De sofrimentos particulares, como aos dos “bebés roubados”. Sobre o não limite das medidas sistemáticas para “proteger a ordem e a paz” da população. É a torre dos sobreviventes. Sobre a Comissão da Verdade deles. Estão soltos, mas com as mentes em “coma” no passado. Este filme permite acordá-los. Mortos por defender a democracia e a liberdade.
Cada um conta com detalhes as torturas vividas. As perdas. Lembrar, relembrar, falar tão exaustivamente que uma hora não se precisará falar mais. De aliviar a alma e a consciência. Essa é a mensagem objetivada. Que com simples ações resolvidas, o mundo pode mudar e ser um melhor lugar para viver. Contra más índoles, os afrontando com câmeras de televisão e perguntas diretas de repórteres diretos. Inevitavelmente, o final sentimentaliza mais a história com a abertura do caixão com close nos restos mortais e no sapato. Não estraga a experiência, mas muda o tom e o ritmo.