Crítica: O Ano de 1985

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As memórias de um são importantes para todos

Por Pedro Guedes


É curioso que este “O Ano de 1985” esteja chegando aos cinemas brasileiros uma semana após “O Mau Exemplo de Cameron Post” ter entrado em cartaz: por mais que já nos encontremos em pleno século 21, vivemos em uma sociedade que parece disposta a andar para trás e a desfazer (ou, no mínimo, enfraquecer) todas as conquistas que foram obtidas ao longo das últimas décadas – e, no meio deste contexto, torna-se cada vez maior a intolerância contra grupos que finalmente vinham conseguindo o espaço que mereciam. Por isso, é importante que obras como as que foram citadas no começo deste parágrafo ganhem notoriedade no circuito cinematográfico, já que ambas giram em torno de personagens que pertencem à comunidade LGBTQ e, portanto, assumem uma posição contrária à homofobia que, infelizmente, ainda faz parte da nossa realidade.

Dirigido e roteirizado por Yen Tan a partir de um curta-metragem que ele mesmo realizou em 2016, “O Ano de 1985” conta a história de Adrian Lester, um homem que, depois de estabelecer emprego e moradia em Nova York, decide voltar ao Texas no qual nasceu para celebrar o Natal com sua família, que não via há um bom tempo. Composta por um pai rígido, por uma dona de casa e por um menino que sofre bullying, a residência dos Lester vive sob uma doutrina religiosa e conservadora que declarou apoio à candidatura de Ronald Reagan, frequenta a Igreja constantemente e dificilmente toleraria o convívio com um gay assumido. O que ninguém imagina, no entanto, é que o próprio Adrian é um homossexual que há muito esconde este detalhe de seus familiares, culminando, claro, em uma série de conflitos internos que tendem a abalar a consciência do rapaz.

Não sei dizer até que ponto “O Ano de 1985” pode ser considerado uma autobiografia de Yen Tan, já que a maneira como a vida pessoal do cineasta se desenrolou pode não ser exatamente igual à jornada de Adrian – em contrapartida, só o fato de Tan ser assumidamente gay já me leva a imaginar que muitos dos dramas retratados no filme são… fidedignos. E são mesmo. O mais interessante, porém, é que a homossexualidade de Adrian demora a ser apresentada para o público: em vez disso, o primeiro e o segundo atos preferem construir aos poucos a saudade que o protagonista mata ao revisitar seus entes queridos, os pensamentos conservadores que tomam conta daquela família e os motivos que fazem Adrian ter tanto medo de “se abrir”. Assim, cada palavra dita pelos cultos frequentados pelos Lester torna-se um peso que só é agravado pela postura bruta que seu pai (vivido por Michael Chiklis) insiste em adotar.

Por outro lado, isto não impede Adrian de ter um carinho irrestrito pelos seus familiares – e, neste sentido, “O Ano de 1985” acaba revelando um lado surpreendentemente aconchegante, já que as relações que o protagonista estabelece com sua mãe e com seu irmão frequentemente levam o espectador a se emocionar diante de tamanho afeto. É tocante, por exemplo, ver como Adrian se esforça para que o caçula corra atrás de seus objetivos e não abaixe a cabeça ao ser confrontado pelos valentões do colégio, ao passo que as constantes conversas com sua mãe invariavelmente o fazem descobrir que esta é bem mais… esclarecida do que parecia ser. Tudo isso é complementado pela ótima performance de Cory Michael Smith, que encarna Adrian como um sujeito que entende sua posição, porém teme assumi-la até mesmo para as pessoas que mais ama no mundo.

Para completar, “O Ano de 1985” conta com um fator que tende a favorecê-lo em termos de atmosfera: o fato de girar em torno de um protagonista que está voltando à sua terra natal e reencontrando velhos rostos conhecidos depois de muito tempo. Não é de se espantar, portanto, que a direção de Yen Tan revele um caráter nostálgico ao lidar com diversos elementos criados pelo roteiro que ele mesmo escreveu, conferindo ao filme uma textura que parece corresponder àquilo que o próprio Adrian está sentindo ao reviver suas memórias – e a fotografia de Hutch, em especial, compreende a proposta de Tan ao investir no preto e branco (constantemente associados a materiais “antigos”) e em planos estáveis que, no máximo, se movem discretamente (como se tentassem identificar as lembranças do protagonista com calma e paciência).

Levando o espectador a sair do cinema sentindo um carinho imenso pelo personagem que acompanhou por uma hora e meia, “O Ano de 1985” é um filme que, mesmo contando com uma duração relativamente curta, aproveita cada minuto de sua jornada para pintar um retrato completo a respeito de seu protagonista. E, no processo, acaba mostrando para o público – mais uma vez – que não há sentido algum em rejeitar uma pessoa apenas por ela… amar outra pessoa. Em pleno século 21, é uma pena que isso tenha que ser explicado pela enésima vez.

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