A Humanidade anda mal mesmo

Por Pedro Guedes

Durante o Festival do Rio 2018


O fato de “O Mau Exemplo de Cameron Post” ser um filme tão bom é uma prova de como a Humanidade anda mal. Povoado por personagens que vivem de semear o ódio e de tratar a intimidade dos outros como “pecado”, o longa é recheado de diálogos absurdos e situações inacreditáveis aos olhos de qualquer pessoa que conte com o mínimo de empatia e sensibilidade. Infelizmente, o mundo vem se mostrando cada vez mais apático e insensível – e isto faz os horrores retratados na obra soarem tristemente realistas e palpáveis, já que criaturas que enxergam a homossexualidade como “libertinagem” não só existem como estão ocupando cargos cada vez mais poderosos.

Baseado no livro homônimo que Emily M. Danforth escreveu em 2012, “O Mau Exemplo de Cameron Post” é o segundo longa da diretora Desiree Akhavan (o primeiro foi “Appropriate Behavior”) e gira entorno da adolescente Cameron “Cam” Post, que, depois de ser vista beijando uma amiga dentro de um carro, é encaminhada para uma instituição chamada God’s Promise a fim de “reverter” qualquer atração que ela possa ter por uma pessoa que divide o mesmo sexo. A partir daí, a garota passa a sofrer nas mãos da doutora Lydia Marsh, que comanda o local ao lado do reverendo Rick, seu irmão.

Dirigido por Desiree Akhavan de maneira melancólica e emotiva, “O Mau Exemplo de Cameron Post” é um filme que entende que uma das maiores forças do Cinema (e da Arte de modo geral) consiste em sua capacidade de estimular o exercício da empatia – ou seja: através de determinadas obras, o espectador é levado a se colocar no lugar dos outros e, com isso, consegue ter uma ideia do que é enxergar o mundo sob uma ótica diferente. Dito isso, qualquer ser humano que entenda que o amor jamais será condenável estará preparado para assistir a este longa, que frequentemente põe os personagens em situações onde eles se envergonham do que são – e o mais doloroso é que até mesmo os poucos momentos de alegria para a protagonista (como aquele em que ela canta “What’s Going On?”) terminam de forma embaraçosa e constrangedora. Tudo isso porque Cameron Post estava afim… de outra menina.

E o filme mostra como é absurdo tentar intervir na intimidade de outra pessoa ou induzir alguém a sentir vergonha de ser quem é. Neste ponto, o roteiro escrito por Akhavan ao lado de Cecilia Frugiuele aproveita para criticar o conservadorismo daqueles que se aproveitam da religiosidade cristã para propagar o ódio ou para levar os praticantes a se sentirem frequentemente culpados pelos “pecados” que cometem (como a masturbação, por exemplo). Aliás, quando um psicólogo pergunta a Cameron se os doutores da God’s Promise estão abusando-a emocionalmente, a réplica que a personagem-título oferece não poderia ser mais acertada: “Como que programar as pessoas para se odiarem pode não ser um abuso emocional?”.

O que nos traz à performance de Chloë Grace Moretz, que se revelou como uma grande promessa no fim dos anos 2000 (com “500 Dias Com Ela” e “Kick-Ass”), mas não desenvolveu uma carreira particularmente satisfatória. Aqui, porém, ela finalmente parece ter encontrado o papel que merecia desde o início – e é uma pena que a jovem atriz não esteja sendo cotada para prêmios no fim do ano: encarnando Cameron Post como uma adolescente que, como tal, está se descobrindo como indivíduo e obviamente depende da liberdade que precisava conquistar a partir desta idade, Moretz exemplifica com perfeição todos os dilemas internos da protagonista, que se recusa a aceitar a opressão que sofre por ser quem é e luta para não abaixar sua cabeça. E sua determinação é o que torna Cameron admirável, já que a garota percebe que está em uma condição indigna e se posiciona contra a barbárie dolorosa que cometem contra ela sem necessariamente desistir.

Encontrando um pingo de otimismo para a jornada pessoal de Cameron em seu desfecho (que talvez soe abrupto demais para boa parte do público), “O Mau Exemplo de Cameron Post” seria uma obra anacrônica e absurda demais se o mundo em que vivemos fosse razoavelmente justo. Como não é, resta apenas apreciar este belíssimo longa e torcer/lutar para que a realidade deixe de ser cruel como aquela que é demonstrada aqui.

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