Crítica: O Anjo

Por Fabricio Duque

A estética da desconstrução moral

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


Há uma estranheza que acomete o espectador em alguns filmes: a mudança de opinião sobre gostar ou não quando revisitados em um curtíssimo espaço de tempo, entre uma e outra exibição. “O Anjo”, novo filme do diretor argentino Luis Ortega (de “A História de um Clã”), e produzido pela El Deseo de Pedro Almódovar, é um desses casos.

Muitos elementos podem ser levados e conta a fim de entender isto, entre eles a influência externa do meio, como o próprio ambiente do Festival de Cannes (filme integrante da mostra Un Certain Regard do ano passado) e ou em outra exibição na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2018; e ou a vaidade do olhar a atores com seus corpos explorados, reverberando a manipulação indicativa e sugestiva da percepção do público.

Só que “O Anjo”, ainda que ame ou odeie, é sim uma obra de arte visual, de agilidade narrativa que condensa emoção passional e orgânica com uma precisa, espontânea e urgente técnica que molda todo o contexto, à moda de “Plata Quemada”, de Marcelo Piñeyro.

O filme, ambientado no início da década de setenta, tem um que modernizado de Almodóvar, com sua amarelada nostálgica luz solar, que se funde com a cor dos cachos do cabelo do protagonista; com sua narração adjetivada, e existencialmente coloquial, que indica a direção para contar a história de um “ladrão por nascimento”. Uma “fruta podre” da sociedade.

Carlos Robledo Puch (o ator Lorenzo Ferro, que com suas reações e expressões consegue uma atuação irretocável) está preso há 45 anos, o período mais longo de detenção já registrado na história da Argentina. Durante a adolescência (período que se ambienta a história daqui), ele confessou ter cometido onze assassinatos, executado mais de quarenta roubos e uma série de sequestros. Alguns de seus atos criminosos configuravam-se como uma forma de impressionar Ramón (o ator Chino Darín, filho de Ricardo Darín), um amigo íntimo. Quando sua identidade foi revelada para o público, ele ganhou o apelido de “Anjo da Morte”, graças aos seus cachos e rosto angelical, tornando-se uma celebridade instantânea no país.

“O Anjo” é sobre sua história de vir ao mundo e do que o motivou dançar com o perigo. De um “confiante enviado dos céus” e ou um “espião de Deus”. Aqui, a arquitetura típica pós-modernista mescla-se com o Kitsch das cores vivas e amadoramente conectadas. Carlitos, seu apelido, que era um “garoto problema” que precisava manter sua “fama de mau”, não apenas passou pela vida e sim foi um aliado, ganhando assim reviravoltas sortudas e acasos facilitadores. “Não ande nada com coisas que não são suas, o esforço te dará”, ouve o conselho, mas o deturpa completamente.

É uma experiência sensorial. De sinestesia metafísica. De despertar nossa predileção pelo mais cruel que a alma humana possa esconder. É um lobo em pele de carneiro. Um fofo manipulador. É um encanto ao bad boy, que a psicanálise explica como uma identificação com nossos demônios mais internos. Carlos faz de tudo para conquistar, até mesmo apanhar sem limites. E assim, sempre consegue o que quer, de um jeito ou de outro. É um insensível, egoísta e gênio anjo do crime. É tudo ou nada.

Uma das características do cinema argentino é a forma de romper maniqueísmos e convenções de cunho moral. As disfuncionais famílias enaltecem a liberdade e o querer explícito de vivenciar oportunidades de “relaxar o ânus”, encontrando semelhantes (“trombadinha lindo”) que compartilham das mesmas projeções com tapas, nudismo e a naturalidade de roubar sem errantes, errados e culpas. Nós espectadores adentramos em um personificado, normal, sádico e surreal submundo, com um que de “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles.

Carlinhos é frio, calculista, abusado (acreditando ser invencível – típico da idade) e uma encarnação de James Dean com Xavier Dolan, em um conjunto de “Easy Rider” de ser com a epifania referencial, sugestiva e sensual de “Morte em Veneza”, de Luchino Visconti. Sim, os roubos são simples, tudo por causa da ingenuidade desprotegida de uma época. A dupla de amigos íntimos (com felação explícita) consideram-se “Che e Fidel; Evita e Perón; Bonnie e Clyde”. Um “tesouro de loucos” meio “Assassinos por Natureza”, de Oliver Stone (com roteiro de Quentin Tarantino).

“O Anjo” é também sobre a universalidade dos sentimentos. E é um filme de amor. Estranho, inquieto, drogado e confuso como nas músicas de “Amor Completo”, de Mon Laferte, e “Arrancame la vida”, de Agustín Lara. Aqui, estes deliquentes, “Romeu e Romeu”, “brutos que também amam”, sentem ciúmes e raivas infantis. Entre fantoches da televisão com The Doors, Frank Sinatra e Zombies, o longa-metragem, que faz com que o público infira “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, é um filmes de muitas expansões, mas de única criação, que controla totalmente as emoções e caminhos de seu público.

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