Crítica: Longa Jornada Noite Adentro

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Na calada de uma estética noite

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


Exibido no Festival de Cannes 2018, dentro da mostra Un Certain Regard (“Um Certo Olhar”), “Longa Jornada Noite Adentro” é, acima de tudo, uma sensorial e estética experiência de prazer aos olhos, principalmente por parte do filme ter utilizado o 3D como condução narrativa.

Dirigido pelo chinês Bi Gan, em seus vinte e nove anos de idade (de “Lu bian ye can – Kaili Blues”, de 2015, sua estreia em um longa-metragem), o filme em questão aqui, falado em mandarim, faz com que o público estimule uma cruzada inferência a “Amor à Flor da Pele”, de Wong Kar-Wai, com “Um Toque de Pecado”, de Jia Zhangke.

“Longa Jornada Noite Adentro” apresenta-se também como uma moderna odisseia existencial, em que sonhos, realidades, sensações, percepções e decisões são projetadas por um propósito já desenhado, escrito e previamente determinado. Mas é quando o protagonista subverte a ordem imposta por novas escolhas gerando novas situações que o filme realmente acontece.

Luo Hongwu (o ator Huang Jue, de “Lian ai zhong de Bao Bei”) volta para sua cidade natal depois ter ficado impune por um assassinato que cometeu há doze anos. As memórias da mulher que matou voltam à tona. O passado, o presente, a realidade e a imaginação começam a se confrontar. E a forma de libertar a própria alma e acalentar a culpa é mergulhar sem limites e amarras do retorno em uma defensiva fuga mental. A loucura protege o psicológico e ajuda a sobreviver no meio de uma vida já morta e sem esperança.

“Longa Jornada Noite Adentro” é um filme “submarino”, que inicialmente constrói toda mise-en-scène de fora para dentro. Curiosamente, este tem o mesmo título em inglês da obra cinematográfica dirigida por Sidney Lumet em 1962. Sim, apenas curiosamente, porque seu tema é diferente e se arquiteta principalmente por sua técnica, em especial à fotografia em seis mãos de Yao Hung-I (de “Missing Johnny”), Dong Jinsong (de “The Donor”) e David Chizallet (de “Cinco Graças”, “Os Anarquistas”).

Pois é, a tradução de todo e qualquer filme está em seu conjunto e cada área dessa construção traz subjetivas vivências e visões próprias de como ver o mundo. E “Longa Jornada Noite Adentro” também importa características típicas do cinema chinês, como por exemplo, a extensão da contemplação do tempo, que se desenvolve por detalhes e por uma pausa-epifania.

Só que nem tudo se resume apenas a uma experiência estética. A sétima arte precisa condensar e equilibrar suas histórias. Se em uma falta um elo e ou uma conexão orgânica, então nós temos o que se chama de oportunismo hipster. Uma estrutura estética conhecida por arthouse, que pretere a forma que o conteúdo. Por outro lado, devemos analisar que cinema também é sentir e, como já foi dito, uma prazerosa experiência do olhar.

A imprensa internacional aqui em Cannes reverberou que não há originalidade neste filme, porque Christopher Nolan já abordou o “entre sonhos e realidade” em seu “A Origem”, e ou Makoto Shinkai em sua animação “Your Name”. E que este só se salva pela presença da metade parte em 3D. Sim, nós sabemos que é inevitável a comparação a outros filmes. E algumas vezes este artifício crítico pode desnortear o próprio leitor, tudo em prol da subjetividade absoluta de seu escritor. Mas não é bem assim e tampouco tão assado. Bi Gan disse que sua influência maior foi o cineasta russo Andrei Tarkovsky (de “Solaris”), além de “Um Corpo Que Cai”, de Alfred Hitchcock; e “Pacto de Sangue”, de Billy Wilder. “Todos esses me ajudaram a fazer este filme”, complementou.

“Longa Jornada Noite Adentro” é um exercício de linguagem. Uma criação visualmente harmoniosa por sombras e pela artificialidade da luz neon, gerando uma obscura atmosfera com reflexos metafísicos à moda de “Blade Runner – O Caçador de Androides”, de Ridley Scott, sem logicamente os mutantes, que aqui são transmutados e personificados por emoções tipicamente humanas. É uma perseverante jornada noite adentro.

Outra característica da cinematografia chinesa é a criação de simbolismos, pululando requintada metáforas a fim de filosofar o que se passa no momento. Esse longo caminho é na verdade o submundo interno de Luo, que só encontra a ambiguidade da escuridão, pois seu personagem não se liberta dos próprios demônios entre passado e presente. “Eu me preocupava com quem estava voando para as estrelas”, diz-se.

“Eu escolhi um gênero, que neste caso foi noir, e escrevi um roteiro. Então, eu resolvi interromper e quebrar o próprio processo enquanto estava gravando o filme, E resolvi quebrar ainda mais. Eu estava sempre tentando simplificar e atrapalhar meu processo criativo, e até mesmo na edição, com interrupções ao olhar para as imagens e tentar dividi-las em formas ainda menos formatadas e semelhantes. E essa é a versão que você acaba vendo”, finalizou seu diretor Bi Gan.

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