Crítica + Entrevista: La Cama

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O tempo que o tempo tem

Por Vitor Velloso


Algumas obras cinematográficas não são experiências que abrangem um grande público, mas se restringem a um pequeno grupo de pessoas que estão dispostas a se entregarem à proposta do(a) diretor(a) através de planos longos, intensos silêncios, poucos diálogos etc.

O público é bem reduzido, mas tendo a consciência que o processo de fazer cinema requer algo mais intrínseco e pessoal que agradar à um determinado número de pessoas, a diretora Mónica Lairana realiza seu novo trabalho, “La Cama”, com um esmero ímpar construindo cada plano através de uma força que rege seus personagens, compreendendo o tempo de sua temática, o esvaziamento de um casamento. O interessante, é analisar o longa depois de alguns dias e perceber que a dissolução é algo inevitável, mas este processo não cairá no esquecimento, nunca. Sendo capaz de capturar o compartilhar do silêncio, onde não há o que ser dito, não há o que ser interpretado, a informação é objetiva demais para conceder aos caprichos de outros meios. Desta maneira, a decisão da diretora de manter-se afastada o tempo inteiro da ação, optando por fixar seu tripé fora do cômodo onde os protagonistas se encontram, coloca o espectador como um voyeur, um mero observador diante daquele drama.

A fim de compensar os longos silêncios, o design de som (Germán Chiodi) é fundamental na construção dessa atmosfera, qualquer mísero som, é um estrondo. E a fotografia de Flavio Dragoset consegue ser bastante sutil durante a maior parte da projeção, buscando um naturalismo que se relacione diretamente com esta visão voyeurística, mas consegue compor momentos lindíssimos, uma luz que entra pela janela e está nos móveis, entre outros. Toda a cadência da obra é regida pela dupla de atores, Sandra Sandrini e Alejo Mango, que conseguem sustentar à proposta de Mónica com uma maestria deslumbrante. Rendendo à Sandra o prémio de melhor atriz no Festival de Mar del Plata. Todo o trabalho é de uma maturidade que consolida Mónica, uma artista potente que possui convicção daquilo que está realizando frente à uma misancene que nos convida à não-interferência. O processo de encenação é ardiloso, a lentidão dos movimentos, sutileza nas expressões e o grau de exposição que há de cada um dos corpos necessita uma harmonia tamanha em set. Além disso, o tempo que o tempo tem não é mensurado pelo enquadramento, é de uma subjetividade que só uma compreensão humana, que conserva a imagem e flerta com a psique mais profunda de seus personagens, suporta. Não há necessariamente signos que possam ampliar e/ou esgotar à narrativa, pois a forma fílmica aqui se simplifica em concretizar a essência cinematográfica.

Essa constante sinceridade com o projeto, faz com que as relações do público sejam amplificadas por questões empáticas e catárticas, promovidas pela direção delicada que Mónica demonstra. Sem dúvida o mais curioso de todo o filme é a linguagem estóica, que respeita de maneira quase religiosa a distância necessária para que não haja invasão daquele fim de ciclo. Contornando com organicidade os possíveis dogmas que sua trama pode esbarrar, a partir das morais voláteis de determinadas pessoas.

Uma questão que o longa irá enfrentar, é a provável desistência de diversos espectadores pela lentidão inerente do material e pequenos moralistas de plantão, além do vício narrativo de conflitos explícitos, de uma necessidade de amplificar qualquer circunstância minimamente dramática em diálogos e música, e tudo que possa ser exterior à naturalidade que Mónica pretende. Não à toa, a distribuição deve se concentrar em eixos nobres das cidades.

Inúmeras vezes vemos projetos bastante interessantes que são jogados nesse escanteio zona sulista de um circuito que pouco compreende o mercado brasileiro, mas salva filmes de seu esquecimento completo, inegável. Em consequência disso, mantemos nossos espectadores fadados à uma constante repetição de paradigmas cinematográficos dos quais eles jamais poderão sair, pois nossos exibidores se recusam a exibir projetos “arriscados”. Conhece o grande público que assiste à longas de extremo dinamismo, mas não dão oportunidades distintas aos mesmos. Sinto pela Mónica e todos os realizadores que não pretendem entregar seus esforços à uma indústria de alienação e que busca algo diferente ao cinema. Toda a equipe técnica de “A Cama” possui uma qualidade irrefutável, mas serão descobertos pelas pessoas que já conhecem grande parte de suas obras. Não alcançaremos novos públicos.


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