Crítica: Hungria 2018

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Reflexões do reacionarismo

Por Vitor Velloso

Durante o É Tudo Verdade 2019


Ao analisar o cenário político internacional do mundo atual, é possível ver um avanço acentuado do conservadorismo no mundo, a consequência disso são retornos de “valores” preconceituosos e que atingem diretamente os direitos daqueles que não se enquadram na normatividade dos ignorantes de plantão. Não, o conservadorismo político não implica objetivamente em gangrena cerebral e te faz um tumor social, mas com o crescimento da questão, vemos parcelas ideológicas tóxicas ressurgem e consigo trazem novos modelos de fascismo, ou velhos. Como disse Eduardo Escorel em texto de 1985:

“Na cultura política, por exemplo, costuma-se confundir anistia com esquecimento, como se fosse admissível, para assegurar a sobrevivência da aliança política detentora do poder, esquecer os crimes cometidos pelos agentes de repressão. A história nos ensina, porém, que essas tentativas de apagar o passado servem apenas para perpetuar relações de dominação. Ao rememorar o holocausto, o povo judeu nos demonstra como nem mesmo uma tragédia daquela dimensão deve ser esquecida.”

E anistia não significa perdão em termos jurídicos, até porque apenas a Lei pode conceder anistia, logo evocar o perdão de um genocídio em massa que escravizou, torturou e matou seis milhões de judeus é um gesto grotesco diante da História. Não há perdão. E os alemães sabem disso.

Neste contexto, as eleições da Hungria de 2018 foi uma síntese do reacionarismo global, onde Viktor Orbán saiu-se vitorioso contra Ferenc Gyurcsány. Orbán por sua vez é um ultraconservador xenófobo que chegou o poder através de uma campanha anti-imigração, expõe seus preconceitos com discursos homofóbicos e racistas, acompanhado de todos seus apoiadores políticos. “Hungria 2018: Bastidores da Democracia” de Eszter Hajdu é um documentário que irá acompanhar o andamento destas eleições na Hungria, reflexionando qual o conceito contemporâneo de democracia e humanismo através das atitudes de ambos os candidatos, principalmente Orbán. Hajdu é hábil em construir uma visão concreta dos processos políticos e ideológicos que resultaram na vitória do ultraconservadorismo. Por vezes soa prender-se à uma pauta mais ideológica que factualmente política, o que não é um problema direto da diretora, apenas, mas uma questão da esquerda que mantém-se presa a proposições excessivamente ideológicas, que permite um avanço ainda maior das propostas fascistóides avançarem sobre a população.

Mas a centralização dela com a questão dos imigrantes torna a obra um registro intenso acerca da onda de preconceitos que (res)surge no mundo. Agora, sem dúvida há um tom, ainda que sutil, de maniqueísmo por trás da estrutura formal que ela decide assumir, já que ela tangencia algumas questões discutíveis de ambos candidatos a fim de priorizar à temática que está em evidência e que foi eixo da campanha, porém, perde-se muito com a falta tátil com questões menos objetivas, como determinadas questões pessoais, de maneira mais direta. Ainda assim, a fixação de seu filme a partir deste ponto de vista específico e compreensível se partirmos do ponto que Gyurcsány aborda em uma entrevista “Não trata-se de ideologia, mas de humanismo”.

“Hungria 2018 – Bastidores da Democracia” situa-se em uma contemporaneidade bastante sólida, utilizando uma montagem veloz que salta de um plano à outro com maestria, sem perder o ritmo em nenhum momento, todo realizado com materiais realizados pela própria diretora. E a maneira como ela acompanha toda a correria e pequenas-grandes polêmicas, faz o espectador brasileiro reviver algo que no mesmo ano, passamos aqui, com semelhanças curiosas e bastante comuns em demagogos que alçam ao poder através de um discurso nacionalista e segregacionista, apoiado pela maioria da população mais velha e repudiado por grande parte dos estudantes. Levantar a bandeira de seu país, nomeando de “nação”, buscando apagar a história nacional com argumentos voláteis e tenebrosamente estúpidos, mas que curiosamente quando os estrangeiros vem nos “agraciar”, oferece até o que não deve como recompensa. Uma síndrome de Estocolmo que deveria ser estudada pela sua massiva presença no cenário político contemporâneo, com a maioria possuindo apoio de Steve Bannon.

Quando, os considerados otimistas, levantam a voz a fim de nos explicar não tratar-se do fim do mundo, é um fato. Mas que as instituições estão à venda aos que já possuem poder em excesso e destruíram todo um patrimônio cultural, também é um fato. A cultura torna-se algo tão supérfluo que os investimos artísticos no país são esvaziados, atingindo o fundo do poço. E o cinema nacional chora.

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