Por Fabricio Duque

 

Há muito tempo, as animações cinematográficas deixaram de ser somente infantis (na verdade nunca foram, se analisarmos nas entrelinhas) e ganharam contornos perspicazes, de diálogos altamente espirituosos, quebrando a própria estrutura com uma sacada cômica-coloquial ao refletir recorrentemente os elementos pop (e nerd-geek) da atualidade (a roupa que “não precisa da atualização de Java o tempo todo”) e ou releituras da estética dos anos oitenta. “Heróis da Galáxia: Ratchet e Clank” é um deles, e acima de tudo uma crítica-picardia sobre o comportamento atual de nossa egocêntrica-individualista-oportunista sociedade (e sua “cidade: povo amigável e bem barulhento”). Aqui, um “ditador” que busca “construir” uma galáxia perfeita representa a “radicalidade” do cúmulo da intolerância (como “punir” seus “súditos-empregados” quando estes estão “mandando mensagens” no celular e ou “ligando para suas mães”). “Robôs, mexam esse Culler”, faz rir com suas máquinas na ginástica, em uma engraçadíssima inocência. Outro maestria é sua dublagem, que se “adapta” à cultura informativa do nosso país, com suas gírias (“Etalelê”), referências políticas e “conflitos” com o Uber. “Heróis da Galáxia: Ratchet e Clank”, de Kevin Munroe e Jericca Cleland, gera no espectador (tanto o público alvo: a criança; quanto seus acompanhantes-responsáveis) a plena satisfação de “fornecer” inteligência ao que se assiste. Há o inventor desastrado que “tem a chave de digitar no papel” (o “embate” entre o analógico dos “idosos” – “muito velho para morrer” – e o “progresso” digital dos que já nasceram na tecnologia). O roteiro é preciso com as palavras adjetivadas (como “descuidado” versus “despreocupado”), com a mensagem realista-existencialista-filosófica (“Sonhe pequeno, pelo menos vai se decepcionar menos”), com a crítica à brutalidade da “famosa” comercial-capitalista guarda galáctica (que só usa a força e que “atira primeiro para depois fazer perguntas” ou o “circo” de apresentação entretenimento-apoteótica-épica do “herói-produto” com as “lojinhas” – o comércio da imagem – ou “aceitar” que “civis são mais inteligentes” que eles e ou que acham as armas, “gracinhas”). “Heróis da Galáxia: Ratchet e Clank” é pululado de metáforas e camadas antropológicas (idiossincráticas e de personagem única-particular – “aspectos principais da identidade” – de seus personagens). Cada palavra tem o afiado significado (“imprudente”, “perigoso”, “plenamente operacional”), complementado por frases que alcançam exatamente o objetivo (“Pode fazer qualquer coisa, a menos que seja eu”). O filme também pode ser interpretado como uma parábola de auto-ajuda por reverberar a ideia da persistência aventureira quase intransigente de um “órfão sem nome com sonhos” de nunca desistir e de que um herói é invencível. A narrativa anda todo o tempo na linha tênue do politicamente entre o correto (a suavização) e o incorreto (“Prepare-se para a morte iminente”). Cada integrante (à moda de “Toy Story”, de “Megamente”, de “Wall-E” e de “Missão Impossível”) desta animação precisa lidar com o ego, narcisismo, frustração, perda, decepção, fracasso, sucesso, mídia-jornalista sensacionalista (uma hora um herói, outra um vilão) e com a fama “superestimada” (e “não compensa”). A história gira em torno de Ratchet, um ser alienígena parecido com um tigre, que possui uma grande habilidade com armas e entende muito de mecânica. Ele precisa derrotar o vilão (adjetivado como “astuto” na dublagem) Chairman Drek, que possui uma poderosa arma capaz de destruir todos os planetas da galáxia Solana. Ao lado do robô Clank e do grupo de super-heróis chamado Galactic Rangers, Ratcher (que quer ser famoso por achar que a fama é sucesso de verdade) precisa derrotar o perigoso vilão e, mais uma vez, salvar a galáxia. E não para por aí. Há o campeão “intolerante à lactose”, com “apelidos fofos”, que debocham ironicamente uns aos outros. “Duas barrinhas de cereal e já posso ser uma companhia área brasileira”, inevitável não gargalhar. E assim, pequenas vinganças a la “Minions” vão sendo desveladas, improvisando na melhor maneira de “Jogos Vorazes” (“Posso ir para turma do bem agora?”), entre até mesmo símbolo invertido de “Os Vingadores” e “Mais provável que gostar de sertanejo universitário galáctico”. Concluindo, “Heróis da Galáxia: Ratchet e Clank” é non stop, sem parada nenhuma das piadas-zoação. É definitivamente um filme excelente que precisa ser assistido por todos, pequenos, grandinhos, extraterrestres, heróis e “fracassados”, com as vozes principais de James Arnold Taylor, David Kaye, Sylvester Stallone. Recomendado.

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