Crítica: Fahrenheit 451

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Um Clássico à frente de seu tempo que se recusa a queimar

Por Fabricio Duque

Há livros e filmes que são atemporais e estão anos luz do seu tempo de criação. “Se te derem papel pautado, escreve de trás para frente”, frase de Juan Ramón Jiménez. O longa-metragem “Fahrenheit 451”, do cineasta francês François Truffaut, em 1966, foi baseado na novela literária homônima do escritor americano Ray BradBury, lançada em 1953. Aqui, a fábula-crônica-metafórica-de-ficção-científica é uma crítica afiada e acirrada a nossa própria sociedade de massas, que “carrega fósforos acesos”, queimam livros (vide a Inquisição da Igreja Católica) por preguiça e ou por manipulação da agilidade visual da televisão, e agora da urgência dos celulares. O mundo está cada vez com mais livros vazios, mentes caladas e bibliotecas fechadas. A “ponta do nariz” é sobre onde as direitos terminam e os imperativos territoriais começam. A salvação é a digressão. A alma do intelecto.

A cidade de “Fahrenheit 451” é apenas um pouco mais sombria e opressiva do que a maioria das metrópoles contemporâneas que vivenciam diariamente uma ditadura aceitável e alimentada, hipocritamente, pelos mesmos integrantes sociais que reclamam da não liberdade, jogando a culpa na globalização do Mundo e no capitalismo que violenta quereres e sonhos e engessa pernas. É uma utopia, surgida como uma imagem invertida do real, inserindo percepções de “Um Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley; ”1984”, de George Orwell; e também, “Metrópolis”, de Fritz Lang. Todos se complementam e dialogam entre si. A individualidade é sacrificada a razões de Estado.

“Bem, afinal de contas, estamos na era do lenço descartável. Assoe seu nariz numa pessoa, encha-a, esvazie-a, procure outra, assoe, encha, esvazie. Cada um está usando as fraldas da camisa do outro. Como torcer para o time da casa quando não se tem nem um programa nem sabemos os nomes?”.

“Sou uma cebola normal! Dou muito trabalho para ele ficar descascando as camadas”.

A sociedade do espetáculo é explicada em um diálogo de Faber com Montag. “Os bombeiros raramente são necessários. O próprio público deixou de ler por decisão própria. São poucos os que ainda querem ser rebeldes”. Sim, o comodismo e a “lavagem cerebral” de se incutir novos pensamentos já padronizados participam ativamente pela aceitação do próprio ser-humano-indivíduo-social. “Queimar era um prazer”, diz-se. Mas algo foi plantado. Sua “rotina fora transtornada” (“Como uma pessoa fica tão vazia? Quem esvazia a gente?). “Uma rotina simples, estabelecida em poucos dias e, no entanto…”. Dentro dele é reverberado uma desesperada revolução intolerante (com “selvagem devoção, com descuidada insanidade” – “uma raiva cega que revigora”) de todo equilíbrio construído e arquitetado. “Não se feria ninguém, apenas coisas”. “Os que não constroem, precisam queimar”.

“Filmes educativos parecem um monte de funis e muita água jorrando da torneira, entrando por um lado e saindo pelo outro, e depois eles vêm nos dizer que é vinho, quando não é”.

No filme, na versão de Truffaut, Clarisse (que substitui Faber na versão literária) é resgatada do esquecimento (do livro) e colocada entre os Homens-Livros, que vagavam pela floresta, recitando repentinamente trechos de seus livros para si mesmos. Recentemente, o escritor, que faleceu em 2012, aos noventa e um anos, se deu conta de que seu “inconsciente astuto” fez com que Montag fosse batizado com o nome de uma fábrica de papel. E Faber, um fabricante de lápis. Não há coincidências. O universo está complemente conectado. A trilha sonora é de Bernard Herrmann (compositor favorito de Alfred Hitchcock), e a direção de fotografia de Nicolas Roeg.

“O fato é que não tivemos muito papel a desempenhar até a fotografia chegar à maioridade. Depois, veio o cinema. O rádio. A televisão. As coisas começaram a possuir massa. As pessoas podiam se dar ao luxo de ser diferentes. O mundo era espaçoso. Entretanto, o mundo se encheu de olhos e cotovelos e bocas. E tudo isso foi nivelado por baixo. Imagine o quadro. O homem do século dezenove com seus cavalos, cachorros, carroças, câmera lenta. Depois, no século vinte, acelere sua câmera. Livros abreviados. Condensações. Resumos. Tabloides. Tudo subordinado às gags, ao final emocionante. Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois reduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e, por fim, encerrando-se num dicionário, num verbete de dez a doze linhas”. Pois é, não esqueçamos também de nosso Twitter e seus cento e quarenta caracteres. “Resumo de resumos. Tirar tudo dos teatros, exceto os palhaços”.

“Fahrenheit 451” é a fase já americanizada de Truffaut, mas com ambiência que lembra o universo do cineasta Mario Bava (talvez pela falta de recursos técnicos em se construir uma estrutura futurista, exemplo aos “bombeiros voadores” – porém com a imagética modernista da câmera subjetiva que nos coloca como personagens interativos). O filme, falado em um inglês com sotaque mais britânico, teve distribuição da Universal Pictures. Seu número é relativo à temperatura que um que o papel dos livros incendeia e começa a queimar. Aqui, as ações são teatralizadas e simétricas como se fossem um teatro-musical-livro sem a presença da música, que é substituída pela exponenciação dos ruídos cotidianos.

“Quanto maior seu mercado, menos você controla a controvérsia. A tecnologia, a exploração das massas e a pressão das minorias realizaram a façanha. Não houve nenhum decreto. Nenhuma declaração. Nenhuma censura como ponto de partida. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar”.

Suas queimas de livros no hall externo de entrada dos apartamentos infere a “O Nome da Rosa”, romance escrito por Umberto Eco, em que católicos destruíam os escritos para proteger a “tirania” do pensar único. A ideia de casas “à prova de fogo” são incutidas aqui e massificada com o intuito de subverter o propósito ao bem da sociedade. E de forma muito imediata, dúvidas são plantadas por simples questionamentos sobre o porquê mais aprofundado do trabalho. Como quando um robô excede o conhecimento e entra em curto circuito. Livros são “perigosos” por serem “proibidos”, por “perturbarem as pessoas”, a “deixam infelizes” e as torna “anti-sociais”, sobre “pessoas que nunca existiram”. Mas revistas em quadrinhos sem palavras são permitidas, mostrando que cada vez se busca mais a “burrice” social como forma de criar “soldados máquinas”, insensíveis. Nem mesmo micro-livrinhos em crianças pequenas. Para isso que todos possuem o “teatro da família”. A televisão supre os silêncios, impede pensamentos e crises existenciais de pessoas que “aceitam” inquestionavelmente as limitações impostas. São “passatempos sólidos”, futeis e de prazeres resignados e não hedonistas, como as cores de uma obra de arte de Piet Mondrian, sendo o vermelho predominante.

“Todos dizem a mesma coisa e ninguém diz nada diferente de ninguém. É só cor e tudo abstrato”; “Esquisitos como ela são raros, sabemos como podar a maioria deles quando ainda são brotos”. Os “distraídos, loucos e com a cabeça na lua”; “Os que têm um ar de inteligência são ainda os mais tolos”.

Montag, também professor do corpo de bombeiros, cujo uniforme nos remete ao nazismo e ao exército de Hitler, precisa “aumentar a alegria”, o “espírito de equipe e impedir jovens de não cortarem o cabelo, “boicotando as barbearias”. Saber “esconder” para “achar” os livros. As promoções de trabalho significam mais responsabilidades, como “aumentar a casa”, isto para expôr uma maior condição e “ampliar a família”, um dos “vícios” de sua mulher Linda (que no livro chama-se Mildred), e que quando recebe, literalmente, uma transfusão de sangue de não-médicos, recupera uma felicidade desmedida, um fome tanto alimentícia quanto sexual. Ela está nova, pronta para outras doses de remédios no fim do dia.

“Se a peça for ruim, se o filme não disser nada, estimulem-me com o teremim, com muito barulho. Pensarei que estou reagindo à peça, quando se trata apenas de uma reação tátil à vibração. Mas não me importo. Tudo que peço é um passatempo sólido”.

A narrativa rotineira aos poucos se desintegra e mostra “falhas” de carácter. A de Clarisse com cor, e ao redor quase monocromático. Como já foi dito, a dúvida e a curiosidade foram plantadas, e assim, nosso protagonista se desgarra do grupo de ovelhas, redescobrindo a individualidade e a introspecção em experimentar ler livros (com dificuldade iniciante enferrujada), e por simbolismo, o primeiro é “A História Pessoal de David Copperfield”, de Charles Dickens, que mostra no primeiro capítulo “Eu nasci. Entre eu seu ser o herói da minha própria vida ou essa posição de ser ocupada por outra pessoa, estas páginas o irão mostrar”. Ou saber o motivo dos negros não gostarem de Robinson Crusoé ou os judeus não gostarem de Nietzsche. Ou “qualquer um que tenha lido “A Ética de Aristóteles” acredita que está acima de quem não o leu”. “A única maneira de sermos felizes é sermos iguais”, diz-se e por isso os queimam, “todos eles, incluindo o “manifesto” de Hitler e um exemplar da Cahiers du Cinema, enquanto um livro de Salvador Dalí é folheado pelo vento esperando pelo fim trágico da fogueira. Uma senhora se recusa a sair. A utopia de se morrer por. Uma Joana D’Arc da preservação da cultura.

A raiva cega o consome. E sua ruína será sua libertação. Uma febre interna, que gera pesadelos à moda de “Psicose” de Alfred Hitchcock. Contra os outros de “doce racionalidade”, que “não vivem”, não sentem, não “apenas conversam”, que se “esquecem dos sentimentos” e “apenas matam tempo”. E que dor fisga em nossos corações quando assistimos clássicos serem queimados, como “Zazie no Metrô”, Lolita” e até mesmo a revista “Mad”. Por um livro, o “favorito” (ou o que conseguiu “capturar”), “Histórias de Mistério e Imaginação”, de Edgar Allan Poe, torna-se fugitivo, “criminoso” e lenta escapar, ser “vingado” e “trocar de pele”, atravessando o rio a um novo começo, para encontrar a floresta e os homens-livros, estes seres “precisos” (“vagabundos por fora, biblioteca por dentro” – uma “Cidade de anjos” protetores das palavras de atmosfera Wim Wenders e seu “Asas do Desejo”) que decoram um específico livro inteiro, tornam-se sem nomes, apenas títulos e palavras e perpetuam ideias, conteúdo, utopia, a própria vida real de uma ficção escrita, sem esquecer de “As Crônicas Marcianas”, de Ray BradBury, uma homenagem explícita.

Num futuro hipotético, os livros e toda forma de escrita são proibidos por um regime totalitário, sob o argumento de que fazem as pessoas infelizes e improdutivas. Se alguém é flagrado lendo é preso e “reeducado”. Se uma casa tem muitos livros e um vizinho denuncia, os “bombeiros” são chamados para incendiá-la. Montag é um desses bombeiros. Chamado para agir numa casa “condenada”, ele começa a furtar livros para ler. Seu comportamento começa a mudar, até que sua mulher, Linda, desconfia e o denuncia. Enquanto isso, ele mantém amizade com Clarisse, uma mulher que conhecera no metrô. Ela o incentiva e, quando ele começa a ser perseguido (e morto, segundo a versão televisiva oficial), ela o leva à terra dos homens-livro, uma comunidade formada por pessoas que memorizavam seus livros e também eram perseguidas. Essas pessoas decoravam os livros, para publicá-los quando não fossem mais proibidos, e os destruíam. Com Oskar Werner (Guy Montag), Julie Christie (Clarisse / Linda Montag) e Cyril Cusack (Capitão). Imperdível.

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