juste-le-fin-du-monde

Por Fabricio Duque

Precisamos falar sobre o prodígio canadense Xavier Dolan (que com apenas dezesseis anos dirigiu e roteirizou “Eu Matei Minha Mãe”, depois surpreendeu com “Amores Imaginários”, e depois com a estética de “Mommy”), que recorre, em seu mais novo filme, “É Apenas O Fim do Mundo”, seu tema favorito: a relação simbiótica de um filho “que retorna ao lar” e é “recepcionado” com os surtos de uma mãe louca em uma família disfuncional e psicologicamente frágil, esta que usa a catarse defensiva para fingir ser o que já é no confessional. Ele divide opiniões. É ame ou odeie, os que “torcem a cabeça” (e que vaiaram o longa em sua primeira apresentação, já na segunda – a mais “bombada” e concorrida de todo festival, nem mesmo a de Woody Allen – em “Café Society” – lotou tanto; o “queixo do espectador caiu por assistir algo tão bom”) precisam concordar que o cineasta sempre sabe exatamente transpassar à tela as ideias precoces de um intelecto pós-adolescente superdotado. O longa-metragem, que concorreu a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2016, é baseado na peça de teatro homônima de Jean-Luc Lagarce, exibido em ambiência de película 35mm, busca a estrutura narrativa do constrangimento de suas personagens para assim desenvolver a trama de fora para dentro. Do superficial ao aprofundado com a epifania do estágio mental personificado em algum lugar (partículas-elipses de memórias acordadas). São doze anos de ausência. Impossível não referenciarmos a “Doze anos de Escravidão”, de Steve McQueen. Aqui, o roteiro usa e abusa de sarcasmos-deboches agressivos que envolvem culpas, frustrações passadas, mágoas, raivas, “demônios” e “fantasmas”. A abertura, em tom videoclipe, e com uma narração existencialista-etérea lembra o universo francês de François Ozón e do espanhol Pedro Almódovar, por causa das comidas, das pessoas e dos ruídos. O filme mostra que seu cineasta está mais maduro e mais firme na direção, por defender de forma integral-incisiva suas ideias, sua estética visual, seus diálogos (quase monólogos) e desta vez encenando de forma realista uma adaptação de uma peça de teatro, e provando que continua preciso, afiado e de uma hiperbólica pretensão-arrogância (adjetivo este não depreciativo e sim uma assinatura-maestria conquistada pelo talento inerente). Se em “Mommy”, o cenário solar de querer projetado mantinha-se como protagonista, aqui, a escuridão remete a sinestesia das profundezas da alma humana. “É Apenas O Fim do Mundo” é uma crítica ao exagero, a futilidade e a “idiotice” (implicitamente uma referência a “Os Idiotas”, de Lars von Trier), ao mais que sobrepuja o menos. São picardias de cumplicidade confrontada em expressões interrompidas de “choques” pela verborragia e por memórias intercaladas, quebrando a serenidade quase vazia com trilha sonora moderna contemporânea, verdades diretas-cruéis-hostis e histórias mais importantes, entre a timidez defensiva versus a tagarelice irritante de uma relação mimada co-dependente (revida o grito da mãe gritando mais alto). O filme pode ser definido como um musical de nostalgia anos oitenta que “vê a vida” como um teatro filmado familiar em câmera próxima (extremo close-up) quase personagem inclusivo. Longe de casa há doze anos, o escritor Louis (Gaspard Ulliel) vai ao encontro da mãe, da irmã, do irmão e da cunhada para informá-los que irá morrer em breve. No entanto, o roteiro da curta reunião, idealizado por Louis, sairá de seu controle assim que as mágoas, as memórias, as brigas e as lágrimas do passado começarem a ressurgir entre a família. “É Apenas O Fim do Mundo” é surreal e propositalmente patético, e que eleva a estética de Dolan em conjugar um longo plano estático com fragmentações em outro momento. São loucos, mais amam uns aos outros do jeito deles. Observam, mas não querem “encorajar”. Assim, por possibilidades, por segredos revelados, pela fotografia artificial de luz de velas, pela brutalidade de um circo familiar “freak show”, por tudo, o longa-metragem atesta a genialidade de seu realizador. Com Nathalie Baye, Léa Seydoux, Vincent Cassel, Marion Cotillard. Vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2016. Concluindo, imperdível.

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