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Por Fabricio Duque

 

Em seu mais recente filme, “A Despedida”, o diretor brasileiro Marcelo Galvão (de “Colegas”), consegue um preciso, afiado e orgânico retrato da velhice pela narrativa que busca a sinestesia da naturalidade-espontaneidade das micro-ações continuadas em curtíssimas elipses, que são personificadas em tempo real pelo viés das dificuldades (as limitações físicas-motoras, os remédios, as marcas viscerais da idade e a “luta” para manter as convicções-quereres) de um idoso “observado” por alheios-próximos como um “fantasma-zumbi” que surpreende por ainda estar vivo (interpretado impecavelmente pelo ator Nelson Xavier), que junto com Juliana Paes, sua amante em cena, reverberam a própria desconstrução cênica, mitigando e excluindo toda e qualquer vaidade dos personagens. Esse tempo narrativo objetiva o “mergulho” do espectador à ambiência nostálgica-saudosista, que interage com a sensibilidade da estrutura caseira intimista, como o jogo de cena do “ouvir” e “ver” após a colocação dos aparatos paliativos comuns da “melhor idade” (o abafamento do som antes do aparelho auditivo). É genial. É a própria interferência-cúmplice sensorial à moda de “Mommy”, de Xavier Dolan. É tão simples e tão complexo. É tão puro e tão aprofundado. “A Despedida” é uma possibilidade ao espectador de humanizar a vida que ainda quer ser vivida e desejada por seres “considerados” assintomáticos e “inutilizados” (como uma antiga porcelana decorativa – que o “matam” antes do tempo – como uma fábula de José Saramago, “As Intermitências da Morte”), que gera uma irritada ultra-proteção dos familiares, impedindo a estes “velhinhos” revisitar a própria vida e ou “sobreviver” sozinhos (como o aumento potencializado do tempo de se resolver pequenas ações). Quando o protagonista, um almirante de noventa e dois anos, “peita” a própria existência e as “ordens” de seus “cuidadores”, então a aventura se faz presente e acordada. “Só vale se eu for sozinho”, diz. Esse almirante “luta” pelo seu último querer. E assim recuperar o sopro de vida (a auto-suficiência) para que possa se libertar. Todos os olham com pena (como se fosse um incapacitado) e com impaciência (por não “acompanhar” o ritmo ditado e atual). E ele é. Mas ainda não morreu. Ainda há vida nele, suficiente orgulho e um preciso desejo sexual de um “velho tarado”. O longa-metragem é um conto-parábola intimista de se superar para se despedir. De resolver pendências passadas (saldar dívidas, literal e ou metafórica) a fim de “conquistar” a passagem da morte definitiva. Nós, o público, sofremos com suas “epopeias”, quando confia em terceiros para retirar dinheiro do banco, por exemplo, e ou quando vivencia plenamente e de forma lisérgica-sinestesia suas lembranças-memórias (por meio das “novidades psicotrópicas”). Aos poucos, cada vez que “transpassa pedras” (a felicidade das pequenas vitórias, das redenções, dos perdões e de sentir que ainda pode), sua vivacidade retorno e assim volta a ser novo de novo. O filme emociona sem ser clichê. “Um conselho de quem já viveu muito: faça amor com quantas mulheres você conseguir. Quanto mais, melhor (…) Se aparência explicasse a essência, o sabor não era necessário”, ensina “sabedoria-poesia”, que é “rebatido” com a filosofia popular “estilo botequim”: “Quem come de tudo está sempre mastigando”. “A Despedida”, não satisfeita com toda maestria, ainda lança mão de outra carta na manga: a atriz Juliana Paes, que vive a amante que respeita o almirante, que o vê com carinho (disfarçando o choro e a pena) e e que se entrega em uma das cenas mais poéticas e livres de sexo, como já foi dito, sem vaidade e altamente desconstruída (“Ainda funciona para dar um trato na morena”, ela diz enquanto acaricia o membro sexual de seu “macho”, que ainda “dá no couro”); e uma das cenas mais lindas, a dança “Esses Moços”, de Lupicínio Rodrigues (“Esses moços, pobres moços, ai se soubessem o que eu sei”). “O problema não é ter ficado velho. O problema é ter sido homem”, diz com “lucidez” para “entender a realidade”. O almirante despede-se enquanto pode. E ao viver a vida novamente, consegue se afastar dela. A história é baseada em fatos reais, sobre o avô do diretor. É um filme pessoal e altamente recomendado.
Abro um parênteses (tomando a liberdade) para incluir aqui as palavras catarse ultra-pessoal que escrevi anteriormente sobre o filme, na mesma época que perdi meu avô com a mesma idade. Mesmo não a considerando uma crítica, sinto que preciso registrá-la.
Estreia nos cinemas um filme lindo. “A DESPEDIDA”, de Marcelo Galvão, que fica na cabeça, que emociona sem ser piegas, que faz chorar sem ser clichê, que é orgânico, puro, sensível, livre. Seus atores estão irretocáveis e entregues completamente, sem ressalvas, medos, limites, quase desconstruídos. É também um típico filme que acontece pela simplicidade das micro-ações, que reagem à inércia para se manterem vivas, despertas, acordadas e excitadas antes de sua libertação do corpo terreno. O longa-metragem só se visualiza para mim agora, depois de muito tempo tentando assistir, e conversando com meus botões entendi tudo, toda maquinaria da vida. É sobre um ente querido do próprio diretor, mas para mim é sobre meu avó que virou passarinho com a mesma idade do personagem real, com praticamente a mesma existência e a mesma profissão. É um filme pessoal, libertador, que nasce perfeito, muito mais pela competência e maestria máxima de extrair espontaneidade, naturalidade e sabedoria. Ainda não consigo escrever a crítica completa. As lágrimas não deixam e molham o teclado do computador. Contudo preciso dizer que é um dos meus dez melhores filmes que eu vi em toda minha existência. Nelson Xavier é um monstro em cena. Juliana Paes também. Há química, cumplicidade, sentimento, decisão, orgulho, carinho, cuidado, amor. Tudo que não se escolhe, provando que não temos nenhum controle sobre a vida. Somos conduzidos e vivenciados. Obrigado Marcelo! Sua história também é minha! Sua terapia também é minha! Vamos lotar os cinemas com seus lenços e nossas verdades em tela! Esta NÃO é uma crítica! É algo que ainda não sei!

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