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Por Fabricio Duque

 

O cineasta judeu Steven Spielberg usa seus filmes como uma forma terapêutica de expurgar fantasmas-tragédias-barbaridades de sua descendência. A israelense atriz Natalie Portman aceita a transcendência na direção de um longa-metragem, “De Amor e Trevas”, que também assina o roteiro adaptado do livro homônimo autobiográfico (“A Tale of Love and Darkness”) de Amos Oz. Diferente do diretor de “A Lista de Schindler” que “atualizou” ao inglês uma aura mais dramatizada, a estreante realiza uma obra mitigada de clichês, tipicamente falada em hebraico clássico (“uma língua bonita, tão conservada e tranquila” – culta, de rebuscamento coloquial, quase “Shakespeare”, que têm nas palavras o poder e a fraqueza que encanta), e encarna, com total responsabilidade a personagem mãe de Amos, que “aprendeu”a lidar com o suicídio da mãe aos doze anos, com a guerra, com a desumanização do mundo, sempre tentando conservar sua “inocência” com humanizada “moralidade” solidária. Porém a hostilidade social fez com que três anos depois declarasse uma nova identidade em um novo lugar, o kibutz Hulda, como uma revolta silenciosa de não mais “acreditar” na “terra de leite e mel” de Israel e Jerusalém (“Uma viúva negra que devora seus amantes enquanto eles ainda estão dentro dela”) e ou Palestina (a “nova terra”). “O hebreu olha adiante o passado”, diz-se sobre o “medo do esquecimento, da falta de memória, da falta da luz”. Natalie constrói uma narrativa de um conto, “fábula-existencialista“, poético, que se desenvolve por luz, sombra e lembranças. “É melhor viver sem saber nada do que viver no erro”, lamenta-se. O filme é um teatro realista e um retrato ficcional de uma época com suas vidas e “assombrosos” acontecimentos reconstruídos (tendo os próprios personagens ficcionais dentro de ficções contadas). É com sensibilidade com sóbria maturidade (sem gatilhos comuns manipulados), à moda de “Lemon Tree”, de Eran Riklis, e “Incêndios”, de Denis Villeneuve, que se mescla, nesta “melancolia romântica”, memórias, epifania, sonhos projetados, o “anti-semitismo espalhado na Europa”, ensinamentos perspicazes ao filho “Rei” (o futuro, a próxima geração, o “Tarzan”, o “invencível” – “É melhor ser sensível do que honesto. Seja generoso. Pode mentir às vezes”), por histórias “alegóricas” ou não, livres de pensar limitado e de julgamentos – que mais lembram as “Arabian Nights”, de Xerazade, das “Mil e Uma Noites”. A “escuridão” é sentida pela “melancolia” de quem perdeu a esperança “dramática” (e “humores” de que “há espaço aos dois povos e que só precisam aprender a viver juntos”, em que um pequeno acidente pode desencadear uma vingança – e a guerra que “causa o sofrimento da perda não romântico”), metaforizada pela comida (e o molho vermelho que lembra o sangue) ou a falta dela. E como seus indivíduos sociais escolhem a auto-punição por causa das opiniões cruéis dos outros-próximos. Aqui, “o inferno (a maldade) e o paraíso (generosidade) estão no outro”. Cada um deles influenciará o rumo do caminho a Meca (felicidade), restando apenas sabedoria para escolher o lado maniqueísta do existir e do se comportar. “De Amor e Trevas” é um mergulho etéreo sobre a libertação pela beleza da morte. Um longa-metragem que faz jus à atmosfera sensorial do livro de Amos Oz (um garoto que cresceu com uma biblioteca diversificada de idiomas e que participou ativamente da vida política de seu país), que é uma recriação dos caminhos percorridos por Israel no século XX com farsa e dor. Recomendado.

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