200 ativo, 300 passivo

Por Vitor Velloso


A sociedade julga tudo que não consegue conceber dentro de suas normas morais. Alguns projetos recentes no cinema nacional buscam normatizar certas subversões de padrões, pois os corpos rejeitados pela mídia e maioria não são objetos de esoterismo das conversas de ônibus, muito menos motivo de piada, eles são considerados políticos porque as pessoas que as cercam se recusam a aceitar a não uniformização das coisas. “Copa 181” é um longa que vai buscar esse mundo, tentando decifrar a organização de um mundo marginalizado por repressão do exterior.

Dirigido por Dannon Lacerda, o longa-metragem irá seguir os passos de Kika (Silvero Pereira), Eros (Simone Mazzer) e Taná (Carlos Takeshi), cada um possui uma rotina relativamente marcada mas que conseguem fugir de seu cotidiano com uma libertação pessoal. Cada um à sua maneira, vai se desenhando um jogo dramático com potencial, mas que não consegue se desenvolver por completo dentro da proposta misancenica de Dannon. Não é uma ideia fácil de pôr em prática, não que haja múltiplas camadas entre os personagens e a narrativa, mas a composição do conceito exposto exige uma destreza em conciliar o Drama propriamente dito e as questões políticas e morais que cercam a trama. O diretor consegue até criar certo carisma pelos personagens, em especial Kika e Taná, mas não permite a si mesmo a libertação que dá aos dois.

Kika é travesti e trabalha como faxineira, mas no fim de semana é uma artista na sauna que dá nome ao filme. Sua trajetória é a mais imponente de toda o longa, não apenas na força da resistência política que se mantém, mas pela sua relação com o personagem de Caetano O’Maihlan, conturbada, repleta de desilusões e seduções carnais que nitidamente desenham uma tragédia. Leo (Caetano) é um homem que acredita ser irresistível e busca manter sua masculinidade sempre rígida. Michê, ele ganha a vida fazendo sexo com outros homens e em determinada parte do filme diz que não faz passivo “porque é coisa de viado”, mas ativo ele faz, e cobra caro. O discurso de Leo é comum entre as pessoas, curiosamente, seu personagem reflete bem a masculinidade frágil do sexo. Já Taná, se sente realizado e em um transe enlouquecedor se estiver com outro homem, porém isso deve ser feito com reservas, já que ele possui um relacionamento estável com Eros.

Uma questão de “Copa 181” é sua soltura da construção dramática, o que poderia não ser um problema se a misancene, direção de arte ou fotografia acompanhasse o texto conjugado à direção, o que não acontece, desta forma tornou-se comum escutar pessoas comentando que tinham dúvidas se Taná e Eros eram um casal ou apenas amigos. E não é pra menos, não há esclarecimento sobre isso até próximo ao último terço. E como dito, os diferentes processos durante a produção não dialogam bem, a fotografia busca um certo contraste nas sombras e cores, talvez para atingir algum certo estilo almejado, mas alcança pela metade, já que a imagem digital lavada parece dominar todas as texturas. O que dificulta ainda mais esta força imagética, é a composição que não se esforça em centralizar suas forças em uma encenação sólida (não que haja), em diversos planos é criada uma distância pouco produtiva do assunto fílmico, talvez na intenção de priorizar algum elemento do cenário, mas não há potência na direção de arte também, logo, o esforço de contemplação fica por parte de grandes entusiastas, pois o resultado não é plástico como poderia, crítico como almejava e nem estiloso como acredita ser.

O realismo que Dannon concentra forças em arquitetar, é sabotado por sua tentativa de estilização e falta de estrutura narrativa. Porém, é necessário dizer que a fixação do diretor pelo cotidiano dos personagens torna a proposta crível e humaniza todo seu discurso em uma possibilidade do real, infelizmente bem menos elaborada que conseguiria ser. A contrapartida disso é um problema não tão simples de ritmo, já que nos habituamos a vermos o dia-a-dia das personagens, nada mais compreensível que cansarmos dessa repetição exaustiva.

“Copa 181” é um filme que possuía potencial mas o frescor da estréia na direção talvez tenha desviado seu caminho à uma virtuosidade do trabalho. Dannon com seus altos e baixos consegue manter certa atenção do espectador, talvez o próximo trabalho encante mais.


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