Outra experiência psicodélica de Noé

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2018, o novo filme do argentino Gaspar Noé (do cultuado “Irreversível”, que chocou pela naturalidade de sua violência), “Clímax”, corrobora toda a estética psicodélica de seu diretor em recriar com sinestesia os efeitos alucinógenos de componentes sintéticas. A premissa é simples. Uma experiência psicotrópica de amigos com música, festa, bebidas e drogas. Como uma jornada-transe em quarta dimensão. Aos atores e principalmente a quem assiste. Como uma seita coletiva.

Nós espectadores somos convidados a embarcar totalmente “caretas” e sóbrios nesta viagem de cérebros estimulados, dramas potencializados e sensibilidades à flor da pele. Gaspar Noé transgride a própria existência e deturpa a referência bíblica, arrebanhando e transformando seres humanos em animais instintivos, reais e primitivos, cuja solução é fugir da realidade e se confortar em um universo de imaginação palpável.

O longa-metragem também configura-se como um estudo de caso quando substâncias químicas expandem quereres, medos, surtos, agressividades, libidos, identidades, personalidades, coragens. Tudo é permitido e sem limites. Este é quase uma resumida união de seus filmes: “Enter the Void” com “Love”. O roteiro nos proporciona ultrapassar nossos julgamentos e moralidades pelos macabros caminhos que a mente humana aceita transpassar, apesar de o próprio longa-metragem aqui ser em inúmeros momentos tendencioso ao politicamente correto das engessadas hipocrisias sociais.

Clímax em uma narrativa é o ponto alto de tensão do drama, a partir do desenvolvimento de um conflito. É o momento mais perigoso e delicado. Mas o dicionário nos ensina que também pode ser uma ”comunidade estável, adaptada às condições ambientais específicas da região, e na qual a biomassa e a biodiversidade permanecem constantes”. O filme consegue mesclar as duas definições em um único espaço de tempo.

Nos anos 90, um grupo de dançarinos urbanos se reúnem em um isolado internato, localizado no coração de uma floresta, para um importante ensaio. Ao fazerem uma última festa de comemoração, eles notam a atmosfera mudando e percebem que foram drogados quando uma estranha loucura toma conta deles. Sem saberem o por quê ou por quem, os jovens mergulham num turbilhão de paranoia e psicose. Enquanto para uns, parece o paraíso “psy”, para outros parece uma descida ao inferno. “Marijuana relaxa o músculo dos dançarinos”, diz-se.

“Clímax” é sobre a descoberta e sobre a plural tipicidade. Para uns, o encontro-fuga da realidade permite a resignação da paz. Para outros, uma “bad trip”. É também uma imersão vanguardista, de propositais interferências imagéticas, de câmeras aéreas, de referências contadas de trás para frente, de depoimentos na televisão (em transmissão VHS). Tudo confunde e embaralha para montar o quebra-cabeças investigativo do que realmente aconteceu. Um que de “Se Beber, não Case”, de Todd Phillips? Talvez, mas sem humor e com muita liberdade amadora. “O que não mata, o faz mais forte”, diz-se.

Antes cada um deles conta verdades, segredos e pesadelos: o medo do escuro, por exemplo. De experiências “permitidas”. Um lutar deixa em coma e não se arrepende. “É a vida”, responde-se. Outro “dança para pegar mulher gostosa”. Há quem procure no heterossexual uma possibilidade sexual gay. E quem aja como romântico. “América é o céu na Terra”, diz-se. A primeira parte do filme é seu preâmbulo. Sua metalinguagem de uma subjetiva câmera viva. Uma sensorial apresentação de idiossincrasias e estilos. De ser o que é.

Esses dançarinos estão livres, prontos a novas ações. Entre músicas eletrônicas Rave, ambiente Kitsch a la Pedro Almodóvar, performances à moda de Madonna, teatro cadenciado, planos sequência, sangrias, flashes que mudam cenas, esse grupo pulula variadas e diferentes características comportamentais. Enquanto uma preocupa-se com o filho presente (e na mais radical das saídas). “O nascimento é a única oportunidade”. Quanto mais bebem e se drogam, mais mostram quem são. Começam-se a compartilhar intensamente atmosferas bizarras. Alucinações de LSD. A câmera agora roda. Eles não possuem mais controles sociais de seus corpos. A terapia “selva” primitiva é iniciada. Quase um jogos mortais das drogas. “Meu pênis é a uma anaconda”, sentencia-se um deles no “cio”. A batida da música fica mais acelerada.

“Clímax” busca o clímax. Na fotografia saturada ao neon vibrante das cores. Na nostalgia impressa ao presente do agora. No pós-festa. Na sensação “Trainspotting”, de Danny Boyle. No mijo em close. “O que querem sentir para beber tanto?”, questiona-se. Com manipulações, impulsos “impostores”, violências acordadas e coletividades em conflitos de interesses. “Morrer é uma extraordinária experiência ao contrário”, finaliza-se.

Então, o espectador pode amar ou odiar o diretor. Achá-lo um oportunista ou venerar suas decisões. Mas ninguém pode dizer que Gaspar Noé não possui coragem suficiente em trazer às telas suas ideias mais esquizofrênicas e viajandonas. Sim, aqui em Cannes, os aplausos foram longos, sinceros e cinéfilos.


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