O cinema da sinestesia

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


Exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes 2018, o novo filme da cineasta Nadine Labaki (de “Caramelo” e “E Agora, Aonde Vamos?” – este a maior bilheteria de um filme árabe no Líbano até hoje; que cresceu nos anos de guerra civil), “Cafarnaum”, título que alude à cidade bíblica que ficava na margem norte do Mar da Galileia, é uma experiência-sinestesia, por uma estética de imersão à moda do Neo Realismo Italiano com o conceito estético dos primórdios do Dadaísmo (por propor uma arte de protesto de choque e provocação a esta nossa sociedade burguesa).

O espectador é conduzido a participar das dificuldades de sobrevivência de uma família, principalmente do filho (protagonista que de forma irretocável leva todo o filme nas costas), que está à mercê de tudo o que acontece nos submundos, sofrendo assim os miseráveis efeitos do capitalismo moderno. “Cafarnaum” é uma crítica social pelo estímulo da emoção naturalizada, das consequências em situações adversas e de uma necessidade latente e urgente da não possibilidade de desistência. De um mundo que impede aos menos favorecidos e os mais vulneráveis de sair da lama.

Aos doze anos, Zain (Zain Al Rafeea) carrega uma série de responsabilidades: é ele quem cuida de seus irmãos no cortiço em que vive junto com os pais, que estão sempre ausentes graças ao trabalho em uma mercearia. Quando sua irmã de onze é forçada a se casar com um homem mais velho, o menino fica extremamente revoltado e decide deixar a família. Ele passa a viver nas ruas junto aos refugiados e outras crianças que, diferentemente dele, não chegaram lá por conta própria.

Não se pode negar, tampouco questionar. A maestria absoluta de “Cafarnaum” é o ator Zain Al Rafeea, que unido à direção precisa de Nadine, faz com que o filme aprofunde complexas camadas psicológicas, políticas, sociais e comportamentais. Cada um deles busca a continuação de suas existências. Até mesmo por ações radicais, de autopreservação. Tudo é possível quando não se espera mais nada. Torna-se ingrato mensurar as razões e os julgamentos pelo viés moral-ético das mundanas regras politicamente corretas.

“Cafarnaum” é a odisseia de Zain, em uma jornada que perpassa múltiplos sentimentos dos seres humanos. Da violência à solidariedade. Da barulhenta monstruosidade dos adultos à aceitação de se conviver com os próprios silêncios. Acelera-se seu crescimento. Sua inocência é bruscamente transmutada em uma obrigatória perspicácia, perdendo a esperança, confiança e a fantasia de ser criança, e “ganhando” a depressão, uma inerência da própria arte de viver.

Nós espectadores somos convidados a ultrapassar as barreiras ilusórias do cinema. É aquele típico filme que faz com o espectador pensar durante meses. Ao nos introduzir neste drama social, de um estudo de caso com uma lente de aumento, somos afetados pela emoção natural.

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Cannes, “Cafarnaum” quebra barreiras e éticas já pré-concebidas. Zain processa os pais pelo “crime” de lhe dar a vida. O menino tem rotina dura. Foge de seus pais abusivos e negligentes, sobrevive graças a sua esperteza nas ruas, cuida da refugiada etíope Rahil e seu bebê Yonas, é preso por um crime violento e, finalmente, procura justiça no tribunal. O filme mexe com o coração ao mesmo tempo em que clama por ação.

O longa-metragem busca a sensibilidade para prender o espectador. Zain passa por todas as dificuldades, por todos os dramas, por todas as injustiças possíveis e existentes na vida humana. Entende que os humanos são cada vez menos humanos. Mas em hipótese alguma esmorece. Levanta coragem do fundo da alma, à moda de “Quem Quer Ser um Milionário?”, do inglês Danny Boyle; e ou “Pixote, a Lei do Mais Fraco”, de Héctor Babenco, e ou “Infância clandestina”, do argentino Benjamín Ávila; e ou “Filhos do Paraíso”, do iraniano Majid Majidi; e ou “O garoto da bicicleta”, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne; e ou “Império do Sol”, de Steven Spielberg; e ou principalmente de “Indomável Sonhadora”, de Benh Zeitlin.

Os exemplos não cessam. Até porque quando papéis são invertidos, e crianças deixam de brincar e de serem crianças para sobreviver e se tornar adultos antecipados, “Cafarnaum” ganha o estímulo da revolta, em que o público, solidário, e ainda esperançoso e com resquícios de pureza, volta a olhar para a própria vida e a torcer para que esta história, além de ter um final feliz, possa ser transformadora e resiliente. Sim, o filme nos presenteia com nossa “humanidade” perdida.

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