Crítica: Border

Por Fabricio Duque

Nova normalidade a uma desformação social

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


Exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2018 (que venceu a categoria de Melhor Filme), “Border” representa a verdadeira essência do cinema, quando surpreende o público ao subverter a narrativa com uma estranha e orgânica personificação fabular. É um filme sobre a aceitação das únicas diferenças, que neste caso são expressivamente identificáveis. Se viajarmos nas referências, o longa-metragem automaticamente faz com que sejamos remetidos aos trabalhos ultra-realistas da artista plástica australiana Patricia Piccinini e sua exposição “Comciência”, que aconteceu no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, que lida com nossa reação de estranhamento, ao mesmo tempo incômodo e sedutor, desencadeando uma repulsa visual diante de esquisitas criaturas fantásticas e imaginárias, deformadas e ou mutantes. E ao confrontar, consegue aflorar uma empatia ao humanizar estes seres, desestruturando a opinião já segmentada da “normalidade”.

“Border”, dirigido pelo iraniano Ali Abbasi (de “Shelley”), embrenha-se no realismo fantástico (à moda do diretor Guillermo del Toro de de “O Labirinto do Fauno”). A sinopse nos conta que Tina (a atriz Eva Melander), uma policial que trabalha no aeroporto fiscalizando bagagens e passageiros, depois de ser atingida por um raio na infância, desenvolveu uma espécie de sexto sentido, fazendo com que seja capaz de “ler as pessoas” apenas pelo olhar. Isso sempre representou uma vantagem na sua profissão (por nunca errar um veredito), mas tudo muda quando ela identifica um criminoso em potencial e não consegue achar provas para justificar sua intuição. Após o episódio, ela passa a questionar seu dom, ao mesmo tempo em que fica obcecada em descobrir qual o verdadeiro segredo de Vore (Eero Milonoff), seu único suspeito não legitimado. Meio humano, meio lobisomem.

O longa-metragem é sobre uma habilidade despertada. E a descoberta que talvez ela não esteja sozinha. A estranheza é o fio condutor e o tom certeiro para desenvolver a trama. Quando Tina flerta com uma passageiro, o surreal é potencializado pela cumplicidade das ações. Esse encontro a transforma e a desconcerta completamente. Ela sente novas emoções, e perde os sentidos. Timidez, raiva, medo, desejo sexual. Talvez o amor seja sua Kryptonita. Os dois são iguais e, sim, fica mais estranho e melhor. “Border” é a conexão com o mais primitivo da natureza. Animais passam. Insetos. A raiva dos cachorros. Paralelamente, o filme mostra uma investigação policial acontecendo.

É a fantasia da vida em uma ultra-realista live-action. Pela paisagem de contos de fadas e cromossomos “dançando”. “Se você é diferente dos outros, é sinal de que você é melhor que eles”, diz-se entre amores, “a sombra da besta”, medo da chuva e da trovoada e pênis escondidos. Aqui pode ser inferido como um retorno ao selvagem e ao instinto da idade das pedras para que os diferentes possam se reconectar e aumentar suas forças. Estes “esquisitões” são um pequeno grupo. Não são fracos, mas a cada instante que passa, nós imergimos mais no mundo com que de “O Senhor dos Anéis” com consequências “Dogville”, de Lars von Trier.

O que eles são? Infelizmente não se pode dizer para não estragar a surpresa com spoilers reveladores. Tampouco posso dizer sobre o bebê (o ápice do filme). Seu diretor consegue construir um universo próprio, de equilíbrio cadenciado no terror. A estranheza ganha humanidade. O medo, a cumplicidade solidária. A missão de um, a força de uma mulher que conserva sua presença humana. “Border” desconstrói o público, o descompassando a novas percepções. É uma obra que expande a tendência, que representa a luta ética-moral, muito parecida com “Cada Um na Sua Casa”, animação americana da Dreamworks, de Tim Johnson. É sobre novas experiências. De se permitir a incomuns vivências. De sair da padronização. De se sentir fazendo parte de algo. De re-estimular a felicidade, o riso solto, o grito animalesco preso em cada um de nós.

“Primeiro de tudo, devo dizer que não sou fã de gênero, nem na literatura nem no cinema. Eu não leio histórias em quadrinhos ou livros de fantasia. Meu primeiro filme, Shelley foi meio que na esfera do terror, e agora seria fácil ver esse enorme interesse que tenho em gêneros – mas eu realmente não. Eu vejo toda a coisa de gênero e fantasia incluída, como um dispositivo de marketing. A razão pela qual Border e Harry Potter seriam chamados de fantasia me ilude, mas eu não me importo. Se eu fiz alguma coisa e eles colocam ao lado de maionese no supermercado, deve haver uma razão”, finaliza o diretor Ali Abbasi em entrevista aqui em Cannes.

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