Crítica: Bird Box

Por Vitor Velloso

Números e mais números

Por Vitor Velloso

Netflix


A temática pós-apocalíptica traz inúmeras possibilidades à tona, diversas discussões acerca do que de fato nos mantém como seres humanos, o que seria a civilização, o pudor, a dignidade e, claro, a significação da morte onde ela nos espera a cada esquina. Bom, diversos filmes já trataram dessa temática de maneira menos filosófica e mais pragmática. Dois longas completamente diferentes são: A Estrada (2009) de John Hillcoat e Um Lugar Silencioso (2018) de John Krasinski. Cada um, à sua maneira, constrói com relativo sucesso suas intenções. Enquanto um busca ser um denso drama, que manterá uma melancolia durante toda a projeção, o outro, quer simplesmente um entretenimento de qualidade, onde usa-se com exímia precisão o recurso sonoro, que o faz flertar com breves elementos do horror. E onde “Bird Box” se encaixa? Possivelmente em lugar nenhum.

Dirigido por Susanne Bier, o longa irá acompanhar Malorie (Sandra Bullock) em um mundo em ruínas, onde a maior parte da população está morta. O motivo? Um dia, algo surge na Terra e todas as pessoas que olham para este determinado, algo, comete suicídio. A ideia não é nova, Fim dos Tempos do Shyamalan, por exemplo. Porém, aqui, há de fato a concretização de um inimigo, que no caso são entidades, ou algo próximo, que caminham pelo planeta, provocando todas essas mortes. Algo minimamente curioso é que as vítimas vêem parentes, ou pessoas específicas antes de cometerem o suicídio. Metaforicamente, soa frágil, mas alguma substância aproveitável, existe. Mas nas mãos de Susanne Bier, não.

A diretora crê numa profundidade temática em sua obra, que não existe, pelo contrário, ela faz de tudo para tornar o mais expositivo possível todo e qualquer conceito. Não à toa, um dos personagens mostra desenhos das criaturas. E toda essa tentativa de compreender todo esse universo à um didatismo quase repetitivo soa como falta de recursos no âmbito metafísico, onde o longa busca jogar o tempo inteiro. Buscando uma pífia reflexão do que seria a fé em tempos de desesperança coletiva, ou mesmo, do que te define enquanto mãe. São discussões tão abertas que flexionam o espectador a acreditar que a narrativa irá caminhar a algum caminho minimamente crível ou plausível, dentro do mundo de ideias que busca abarcar, quando no fim, falta imaginação ou bagagem que são desperdiçadas em uma forçação emocional tão frágil quanto todo o projeto dramático do filme. Inclusive, Sandra Bullock está longe do tão usado adjetivo, brilhante, sendo eixo de fraquezas íngremes durante a projeção. Trevante Rhodes caiu de paraquedas no projeto, assim como John Malkovich, ambos possuem personagens unidimensionais que servem de trampolim no roteiro, sempre visando alguma reviravolta melosa que servirá de gatilho à uma moral ou emoção gratuita.

Consequentemente, toda a pseudo-meticulosa carpintaria dramática, é jogada de lado por pequenas repetições formulaicas na estrutura do enredo, resultado de uma preguiça elaborativa e uma indecisão catastrófica de qual caminho seguir. Os breves flertes com tomadas aéreas e um dinamismo mais próximo à contemporaneidade, não funcionam como recurso estilístico, nem narrativo, sendo apenas uma aceitação de uma tecnologia X num produto que nasce datado, mas que busca essas pontes para que possa dizer no ciclo de mediocridade que se prende, que é “moderninho”. Tão esdrúxulo quanto parece seguimos o filme até compreendermos que a síndrome de Nolan, em Interestelar, está presente, o amor, vence. E não, não é um spoiler.

E se Susanne falha ao conceituar a obra, em dinamizar seu estilo, em compactuar com o gênero, ao menos que construa uma misancene minimamente concreta que seja capaz de sustentar às fragilidades do longa, certo? Não. O concretismo midiático da TV com o cinema, se fez presente, e assistimos uma novela das 23h. Ou aquela minissérie que possui mais flexibilidade quanto às palavras e temáticas. Conhecida por alguns dramas e suspenses de gosto duvidoso, a diretora compõe um “Bird Box” que não vai além de uma adaptação de um livro de sucesso, buscando visar os números na conta bancária, aparentemente, ligou o automático e imprimiu todo o filme em alguns minutos.

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