Um filme de Lázaro Ramos e Thiago Gomes

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2019


A história do teatro brasileiro é menos reconhecida por grande parte da população que deveria, em sua maioria, por falta de acesso às mesmas. Projetos que busquem esclarecer essas histórias ao mundo, sempre possuem uma veia nostálgica durante seu processo de realização, principalmente quando os realizadores fizeram parte do que estão filmando.

“Bando, um filme de”, dirigido por Lázaro Ramos e Thiago Gomes irá buscar cada um dos membros do “Bando de Teatro Olodum”, visando dar voz a todas essas pessoas que brilharam no palco por sua resistência, discurso e postura política. O documentário possui diversas imagens de arquivo, recortando algumas performances do grupo, assim como entrevistas com as pessoas que ajudavam a compor este cenário teatral tão único no Brasil. A importância da ideia do bando é inegável, buscavam a emancipação destes corpos negros subjugados pelo ocidente, pela branquitude e pelo olhar dominador dos mesmos. Toda a verve que vemos no material de arquivo, estão nas palavras de cada um, o que mostra que fazendo parte ou não do Bando, ainda, as lutas não cessaram, muito menos a atualidade dos assuntos.

A questão é, enquanto documentário algumas escolher formais, não funcionam tão bem. A sobreposição de algumas vozes em algumas cenas, não casam, a utilização de determinados recursos expositivos, também não. Estas pequenas grandes questões do filme acabam criando vales na experiência do espectador, que se sente pouco amparado durante a projeção. Se a ideia era expor todas essas histórias em um didatismo louvável, os diretores deveriam ter acompanhado o público entre suas transições temporais. O longa foi assistido durante uma projeção no Cine-Praça na 22ª Mostra de Tiradentes, então, foi bastante natural ver a reação das pessoas enquanto o documentário progredia, algumas iam comprar cerveja, outros fumavam, conversavam etc. Claro que isso é comum em exibições em locais abertos, mas a falta de estruturação em algumas partes, criaram uma dispersão. Diferentemente de “Empate”, onde a grande maioria sempre esteve com os olhos vidrados acompanhando a jornada de Chico Mendes.

O anacronismo desta narrativa, cria uma validade social e política que recompensa quem está assistindo, ainda que os diversos problemas de ritmo e estrutura atrapalhem a total absorção da obra. Enquanto temos de um lado a questão formal, do outro a paixão pelo Bando é notória e tocante. Não trata-se de oportunismo diante do cenário de respostas que vivemos, muito menos de gatilhos fáceis para competir em festivais, mas de uma declaração de amor a este grupo que não apenas formou diversos artistas, como deixaram os ensinamentos à vida. Não à toa, em “Ó Paí, Ó” de Gardenberg, vemos pequenas homenagens em momentos específicos.

E toda essa paixão e introdução de peito, não apenas serve de engajamento, para que possamos nos permitir sentir parte daquela energia, mas compreendermos onde toda a saudade e nostalgia reside. Esse mesmo mérito também é parte dos problemas, já que o excessivo apego a determinados materiais, gera algumas barrigas no fim do projeto. Alguns momentos poderiam ter sido retirados sem o menor problema que manteria o fluxo da obra melhor, já que tratam-se necessariamente de excessos.

Por ser o primeiro longa-metragem da carreira de Lázaro e de Thiago, é compreensível que esses problemas ocorram, já que a pessoalidade envolvida é ampliada pela excitação de estar a frente de um projeto onde se tem total controle. Então, temos um filme com belos momentos e uma profundidade emocional reduzida pelos caminhos cinematográficos optados, mas nada tira a potência do Bando e tudo que ele representa. E em momentos históricos como este que atravessamos no país, nada melhor que vermos os negros ocuparem as telas não apenas sendo protagonistas das telas, mas realizadores dos próprios materiais.

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