Resistência no corpo político

Por Vitor Velloso

Integra a Mostra Estreias Cariocas


Construído a partir de quatro histórias diferentes, o novo projeto de Rita Toledo com co-direção de Carol Benjamin irá traçar caminhos diferentes do feminismo no mundo contemporâneo. Apenas com a premissa de buscar uma reflexão das trajetórias de cada uma das Mulheres, já seria um longa interessante, ao menos tematicamente, mas a proposta vai além, um contundente retrato de quatro artistas que estão buscando expressões para gritar suas dores e lutas diárias. Ana Luisa Santos, brasileira. Bia Ferreira, negra e brasileira. Florencia Duran, uruguaia. Lena Chen, norte-americana. Cada uma possui um processo diferente, tanto em concepção artística, quanto em absorção das agressões que sofreram e sofrem.

A estrutura do documentário não as separa em unidades durante a projeção, uma sábia decisão. Primeiro para não reduzir o discurso a utensílios fílmicos, segundo porque a unificação de todos os momentos compreende uma força política única, sem restrições. Ana Luisa, é uma conhecida performer que realizou “Melindrosa”, onde criou um vestido de notas de 10 reais e foi à Carioca, no centro do Rio. Eu irei abordar o resultado da performance mais tarde, já que o soco no estômago é de uma intensidade tão grande que passei duas horas sem conseguir ver ou ler nada. Bia Ferreira, musicista e poetisa, compreende a parte mais sólida do filme, não apenas por sua postura com a câmera, mas por seu discurso absolutamente vivo. Alega não gostar da palavra feminismo e diz com uma veemência arrebatadora que não se interessa por “feminismo” que recusa trans nas causas políticas. Sua luta vai além da negritude e do corpo feminino, mas também por sua lesbianidade. Sua primeira música implorava a Deus para não ser lésbica. Florencia Duran, que pinta mulheres nas ruas, é politicamente a parcela mais incômoda da projeção, não que suas intenções sejam ruins ou coisa do gênero, mas sua postura de ir até uma ocupação exaltar o trabalho que um grupo de mulheres realiza soa brevemente oportunista, ainda que o contrário seja explicitado posteriormente, porém a primeira impressão pode soar desta maneira. E Lena Chen, que está trabalhando em uma interpretação corporal de seu trauma, foi vítima de um “porn revenge”, onde seu ex-namorado vazou vídeos íntimos dela que promoveu uma série de acontecimentos em Harvard, onde estudava.

Formalmente, Rita transita entre uma dialética e um didatismo muito bem vindo, pois, não perde tempo com exposição desnecessária e em situar o espectador continuamente. Logo, é um longo processo onde veremos as artes dessas Mulheres sendo expostas, mas também seus processos criativos. Interessante analisar que tanto a estrutura que a cineasta decide utilizar, de integração, é vista em quadro, estas Mulheres nunca estão sozinhas, mas sempre amparadas por outras Mulheres. A coletividade é a chave do discurso político do projeto.

A fotografia dá um ar levemente televisivo ao corte final, o que não é um demérito total, já que a intenção é a amplitude da circulação deste filme. E neste sentido é curioso ver como o texto e as próprias Mulheres decidem elucidar seus caminhos à arte. Lena, por exemplo, explica que tira fotos com nudez, quase como afronta ou resposta ao trauma que sofreu no passado.

Existe um respeito ao trabalho artístico de cada visível em Rita. Ela nunca as trata como vítimas, nem elas mesmas o fazem, nem como resistentes soltas na sociedade desgraçada e misógina que vivemos. Sempre como artistas que estão à procura de uma expressividade, mas que possuem seus corpos políticos à frente de todo o discurso. Nesse sentido, todo o trabalho que a diretora faz na apresentação de novas Mulheres é bastante singelo. Quando vemos pela primeira vez Penha, uma líder na questão da Vila Autódromo, compreendemos a dimensão da grandiosidade dela. De fala simples, mas verborrágica, sua expressividade, conhecimento e paixão são tamanhas, que o filme para, assim como suas personagens, para que possamos escutá-la. E esta profunda admiração por cada uma das Mulheres que compõem o documentário dita toda o formalismo da obra.

Porém, a sociedade não existe desta maneira, muito menos nosso terceiro mundo. E quando Ana Luisa realiza “Melindrosa”, ela desafia todos que buscam pegar uma nota de 10 de seu corpo e diz: “Você vai arrancar minha roupa?”. No primeiro momento as pessoas reagem, pensam duas vezes. Mas para infortúnio da luta, uma mulher arranca a primeira nota após pensar e refletir sobre o assunto. Sua atitude motiva todos que estão a sua volta, em sua maioria homens, que decidem pegar o dinheiro para si, violentando e arrancado por completo as roupas de Ana. A gravidade imagética do ato é indescritível. Mas além da superfície há uma questão antropofágica da performance, aliás a nota de 10 foi utilizada por sua cor que lembra a da carne. A consumação de seu semelhante, por um pedaço de papel é reveladora não apenas do caráter humano, não só da sociedade, mas do terceiro mundo. Era esperada a reação do grupo, mas a violência do ato motivada por um empurrão inicial deixa claro o teor que renega o corpo feminino enquanto ato político. E a dubiedade de pegar o dinheiro e querer deixá-la nua termina na câmera trêmula que busca ajudar Ana. O Brasil é a terra da antropofagia. Fora das performances a carne é de verdade, o feminicídio é crescente e o ventre que nos gerou é apunhalado com a bandeira do positivismo. 1 Mulher não vale por 10 homens não, porque homem não tá merecendo nem ser posto na mesma frase que elas.


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