Poesia e o charme do prosaico

Por Vitor Velloso


Cláudia Varejão, cineasta portuguesa, vai ao cerne de uma espiritualidade muito maior que um trabalho prosaico poderia proporcionar. Ela extrai uma poesia visual e psicológica, sem dúvida, de uma maneira tão orgânica que faz parecer fácil.

“Ama-San” é um documentário que retrata mulheres que vão ao fundo do mar à procura de algas, ostras e pérolas. A função é milenar, sua beleza ganhou contornos diferentes com o passar do tempo. O filme não é de fato um simples ato fílmico diante dos corpos dessas mulheres, muito pelo contrário, a diretora permite que haja um protótipo de misancene absolutamente ditado por suas personagens. Logo, todo o material é regido pelo que há de mais complexo na projeção, o que significa aquele trabalho. Tudo que acontece diante da tela, à priori, soa desinteressante em texto, porém, Varejão desenha uma poesia deslumbrante ao permitir que parte de sua filmagem seja o mais prosaico ato realizado por cada uma das mulheres presentes. Tais ações variam entre comemorar o fim do dia ou mergulhar e ir atrás daquilo que de fato torna o trabalho, recompensador. E por falar em recompensa, o espectador torce compulsivamente, para que haja um novo mergulho, pois, as tomadas subaquáticas são deslumbrantes. E se me permito adjetivar um texto, que ,por convenção, não deveria ser reduzido à pequenas expressões, é porque reduzo meu relato diante da grandiosidade poética que vemos na tela. Ir atrás de algas, tornou-se meu quadro favorito de 2019, até o momento.

Mas além da beleza, que poderia ser repetitiva aos nossos olhos, há relatos regidos por uma humanidade que há muito tempo não me era apresentado no cinema. A simplicidade de encarar a rotina, um pequeno olhar, poucas coisas escapam da lente da cineasta, ao mesmo tempo, muita coisa não está na obra. A frase soa frágil, mas a experiência de se assistir “Ama-san” não pode ser descrita em caracteres. Ao passo que observamos cada vez mais todas as mulheres do longa, somos submetidos à realidade que não compreendemos o espírito anacrônico de toda a tarefa que estamos observando. Claro que podemos ver em seus corpos e olhares o significado daquilo, ou mesmo, da significação familiar da tarefa. Porém, a barreira cultural que nos separa de todo aquele universo, jamais poderá ser quebrada.

Esses pequenos limites e/ou debates antropológicos que fomentam diversas obras, são fruto de centrismo aos quais os povos aprenderam a internalizar. E diferentemente de uma violentação da imagem ou um estranhamento repentino, Varejão, nos convida a observar o mundo que se dispôs a retratar, sem nunca interferir diretamente no território ao qual não pertence. Essa ética cinematográfica, possui uma característica ainda mais interessante, é de fato, um traço da personalidade da autora. Admirável, sem dúvida. O encantamento que vemos na tela, é o mesmo que há, atrás da câmera. E essa nitidez que somos permitidos assistir, ganha uma proporção, durante a projeção, que não imaginamos. Ao fim do documentário, percebemos que fomos arrastados, de maneira carinhosa, a um conceito que jamais compreenderemos.

O primeiro texto que lemos, funda um conceito muito próprio. Sendo capaz de nos explicar determinada especificidade da função, ou mesmo, inaugurar a significância de toda a estrutura que irá percorrer a obra. Aliás, a montagem é precisa em saltar de pequenas emoções à realizações estapafúrdias. Não há maniqueísmo, apenas a fluidez de uma expressão corporal, quase transcendental, que busca apoio na matéria prima mais primordial da essência da Ama-San, como da vida, em si, a água.

Infelizmente, a cadência flexível que o filme possui, não mantém-se sólida por todo o tempo. Em alguns momentos é possível sentir-se esgotado pelo que se vê em tela, mais por uma questão de repetição imagética/conceitual que Varejão propõe. O que também há algum nível de compreensão, aliás, ela está tratando de um evento extraordinário à maioria, mas do dia-a-dia de mulheres que já compreendam a si como frutos daquele trabalho, não o contrário. O que facilita a perpetuação da cultura e permite que o ritmo do documentário, seja levemente prejudicado pela postura anciã do mar.

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