A Noite Devorou o Mundo

Fábula antropológica a la Aristoteles

Por Fabricio Duque

Durante o Festival Varilux de Cinema Francês 2018

Toda e qualquer obra, que figure sobre zumbis, é em sua essência um filosófico estudo de caso da condição humana, coexistente em um universo social. Seu público é convidado a questionar a própria existência da coletividade, ideia esta defendida por Aristoteles por acreditar ser uma genuína finalidade antropológica. Um dos filmes que nos imerge nesta questão é “A Noite Devorou o Mundo”. Quantos de nós já não pensaram na hipotética possibilidade de não mais existir nenhuma novidade, tampouco um ser humano no mundo? Assim, poderíamos sem pressão ler todos os livros, assistir a todos os filmes, ouvir todas as músicas com tempo de sobra. Mas é ideia passageiro visto que precisamos do outro para tudo. Inclusive para competir.

Em “Náufrago”, de Robert Zemeckis, Chuck, interpretado por Tom Hanks, sobrevive anos em uma ilha deserta por personificar uma bola de vôlei como Sr. Wilson. E em tantos outros, a própria mente imagina presenças reais para conversar e trocar histórias. Aqui não poderia ser diferente, como o preso zumbi para escutar; a “plateia” lá fora de ouvintes-frequentadores de um show de rock. Exibido no Festival Varilux de Cinema Francês 2018, “A Noite Devorou o Mundo”, do diretor francês  Dominique Rocher (que criou a ideia original para “O Último Suspiro”, de Daniel Roby), comporta-se exatamente como um filme de gênero. Mas transcende seu resultado ao transformar o tosco elemento característico em metáfora pululante e não explicativa.

Conduz-se assim pela ambiência do tédio, pela rotina de espera, pela percepção de que quanto mais tempo temos, mais prorrogamos nossos quereres com procrastinações. O longa-metragem é uma simbólica representação da perda. De dar a volta por cima. De aceitar que o passado não existe mais, que o presente é o agora e que o futuro é incerto. De que os outros querem “comer” seu cérebro. Fritar seus sonhos. E o alienar em um mundo mais individualizado. “Estar morto é o novo normal”, diz-se entre os esperados truques da mente.

“A Noite Devorou o Mundo” é sobre nossa incompatibilidade de se relacionar com o outro. Uma incomunicabilidade protegida e defensiva pelo meio digital, este um paradoxo, visto que quanto mais liberdade se consegue, mais cavernas são projetadas. Sam busca a sobrevivência e o fortalecimento neste novo mundo: de ser o único ser não infectado no pós-apocalipse à moda de um “Eu sou a lenda”, com Will Smith. Passando o dia-a-dia com seus inventivos, estranhos e excêntricos projetos musicais. E sendo “esnobado” por um gato que prefere a real liberdade orgânica que a salvação aprisionada.

Como já foi dito, é um filme que não foge de sua característica principal: a simplicidade de sua temática. É direto, objetivo, sem ilusões. Nós embarcamos junto com o protagonista em sua aventura, que se preocupa só com o situacional instante atual contra a perigosa, visceral e instintiva fome dos outros.É a típica obra que confronta nosso propósito, porque quando tudo terminado, só resta mesmo o tempo para viver. Pensamos então com nossos botões sobre o motivo de continuar “acordado” e de não sucumbir e aceitar a transformação da alienação coletiva, comungando apenas urgentes necessidades e apagando o pensar sobre o tudo.

Aristoteles lucubrava que o homem precisa da sociedade para que possa ser plenamente humano (“O isolamento significa a destruição de nossa humanidade”). É neste único lugar, com seus semelhantes, que a troca acontece. Que o sentido adquire vida, ainda que não entendida pelo mistério reinante ao redor das coisas. Este ser pluralista de desejos, emoções e sentimentos adapta-se às limitações do próprio viver acostumado a eleger padrões de conduta. Nós sabemos que somos máquinas errantes em “Westworld”. Que somos marionetes de algo maior e desconhecido. O que nos resta então é aceitar e seguir, como carneirinhos de nossos vontades plantadas.

“A Noite Devorou o Mundo” pode muito bem ser comparada a um episódio de “Black Mirror” por causa de sua fábula realista e fantástica. Não há como o espectador não “viajar na batatinha”. Não saímos imunes pela induzida semente discordante a nosso élan vital, desenrolando o processo evolutivo com complexas formas inventivas de novos seres e estágios, que simplificados ao extremo retornam à essência da criação.

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