Terror para crianças

Por Fabricio Duque


Antes de traçar linhas analíticas sobre o mais novo filme de terror, “A Maldição da Chorona”, é preciso falar sobre o papel do roteirista, que não se ocupa da imagem e sim da construção do caminho, servindo de veículo para que o filme aconteça em tela. Este profissional da palavra precisa lidar com o gênero escolhido e entender suas características típicas, como a sensação de medo ocasionando sustos.

Sim, mas é aí que a criatividade deve ser levada em conta, tentando assim fugir do óbvio e dos elementos repetitivos. Há quem diga também que todas as histórias já foram contadas, e que uma boa trama encontra-se nas sublinhas. “A Maldição de Chorona” desenvolve uma lenda mexicana de uma mulher que chora pela perda dos filhos e que agora vinga sua tragédia com suas lágrimas que matam.

Com estrutura orgânica de M. Night Shyamalan (com um que de “O Sexto Sentido”) e amadora (propositalmente com sua câmera próxima que acompanha personagens como se fosse um deles – em uma visual estrutura barroca, quase um Dogma 95 do Terror, manifesto dinamarquês criado por Thomas Vinterberg e Lars von Trier) a fim de naturalizar a imersão, o longa-metragem, que pelo viés de terror psicológico, causa mais riso que medo, principalmente por suas interpretações de efeito clichê que talvez busque uma homenagem a alguma novela ultra-dramática mexicana.

“A Maldição da Chorona” inicia-se com um preâmbulo exemplificativo de uma digressão de um caso antigo ao México de 1673, em que uma mulher vestida de noiva afoga crianças para depois avançar sua ambientação em Los Angeles, Califórnia, de 1973. Trezentos anos depois a maldição continua.

Um dos desdobramentos que o filme reverbera pós-exibição é a quantidade de teorias conspiratórias que fluem dos espectadores. É o mais interessante, diga-se de passagem. Especialmente pela inserção spin-off da boneca “Invocação do Mal” Annabelle, contada pelo padre referência.

“A Maldição da Chorona” também é sobre a figuração sobrenatural do obsessores, que a religião espírita explica por seres que, mesmo após a morte, ainda estão fisicamente ligados as suas passionais e sentimentais motivações. É um mal que transcende a percepção humana e aqui, por exemplo, as crianças “não estão seguras em nenhum lugar”.

A assistente social Anna Tate-Garcia (a atriz Linda Cardellini, de “Fúria em Alto Mar”, “Green Book – O Guia”, “Vingadores: Era de Ultron”), humanizada e simpática, contra o imediatismo embrutecido dos policiais, criando seus dois filhos sozinha depois de ser deixada viúva, começa a ver semelhanças entre um caso que está investigando e a entidade sobrenatural La Llorona. A lenda conta que, em vida, La Llorona afogou seus filhos e depois se jogou no rio, se debulhando em lágrimas. Agora ela chora eternamente, capturando outras crianças para substituir os filhos. Será por vergonha de alguém descobrir seu chorar?

Anna aceita embarcar nos rituais macumbeiros de um curandeiro, ex-padre (o ator Raymond Cruz), com técnicas “não convencionais” para salvar seus filhos, após uma errônea e cética decisão. A Igreja Católica, pelo exorcismo, busca erradicar os demônios internos de pessoas possuídas por forças poderosas. Pois é, como já foi dito, é um filme de gênero e de terror. O espectador precisa entender também que neste caso possibilidades podem transpor verossimilhanças, como a de humanos, uma americana (conservando a característica de urgência de seu povo), na verdade, possa dar um fim a uma maldição milenar e proteger novas gerações (de crianças essencialmente vulneráveis, escolhidas por “imaginar coisas” com suas mentes férteis).

“A Maldição da Chorona”, quando percebe que o caminho dramático fica mais frágil e ingênuo, resolve apelar aos gatilhos dos alívios cômicos, estes que, por sua vez, desvirtuam o inicial tom de seriedade, que agora é transformado em esquetes, humorísticas e de planos super-rápidos, sem, contudo, esquecer outros clichês, como o choro sentimental de uma lembrança.

Seu diretor estreante em longa-metragem, o americano Michael Chaves (que finaliza “Invocação do Mal 3”), prefere manter-se na zona de conforto, seguindo por fáceis decisões-reviravoltas em uma obra burocrática, como o letreiro falhando de um hospital beneficente, espelhos rachados, tudo em um soturno ambiente, majoritariamente noturno de cores pastéis apagadas. E ou de um padre que conta toda história, com riqueza de detalhes, de Chorona e sua “vaidade assassina” à protagonista incrédula. “Folclore?”, ela pergunta. “Para alguns”, ele responde e a presenteia com uma cruz para “ajudar nos momentos de aflição”. “Não precisa ser religiosa para ter fé”, complementa. Sim, a mente humana sempre buscará a lógica para entender.

“A Maldição da Chorona” causa não consegue causar nem cumplicidade e sim o pior sentimento: pena. Desta presença que ronda de um mal visível e personificado. É um filme que transcende as próprias tipicidades, usando e abusando de inocentes recursos narrativos, como o sonambulismo. “Gente zangada adora falar”, diz-se. Não, não estamos zangados, apenas tentamos entender a condução objetivada que não leva nada a lugar nenhum, como a criança que passeia perdida de guarda-chuva próxima a uma piscina. E ou o abrigo na Igreja. E ou o apelo dramático da garotinha. E ou os barulhos no sótão. E ou a mãe que estranhamente tem um vestido de noiva guardado. Será Anna o verdadeiro espírito do mal? Chorona 2 vem por aí?

Mas sempre há algo positivo em todo e qualquer filme, como o ritual do pano branco com quatro ovos para detectar a presença de espíritos. “Nunca perdi a esperança em Deus”, diz-se em uma redenção final que preserva a moral e os bons costumes da família. Ou não.

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