A Invenção de Hugo Cabret

O inquestionável propósito de Martin

Por Fabricio Duque

Tenho certeza que o propósito do diretor Martin Scorsese é consertar pessoas pelo cinema que realiza. “A invenção de Hugo Cabret” só corrobora a magia que imprime em seus filmes. Neste, especificamente, atinge a áurea cinematográfica, porque se utiliza da metalinguagem para dialogar com espectadores, principalmente os apaixonados pela sétima arte, os cinéfilos de carteirinha e os que só sabem viver e respirar a arte de “capturar sonhos”, não esquecendo os iniciantes, para estes, o longa-metragem faz “viajar” pela invenção do cinema e pela história da vida de Georges Méliès, um cineasta francês, mestre do ilusionismo, que uniu o surrealismo com a possibilidade de eternizar sonhos projetados.

Martin traduziu exatamente, de forma sensorial (sem precisar do artifício da terceira dimensão), apaixonada, passional, técnica e personificada em roteiro, a paixão que se sente ao assistir um filme. Não há como explicar o amor pelo cinema. É algo único, arrebatador, que arrepia a alma, despertando lágrimas e risos, sustos e desconfortos, desesperos e felicidades. Quando as luzes se apagam de uma sala de cinema, e ou, até mesmo em casa, ao iniciar o filme, se o coração ou bater mais rápido ou diminuir o ritmo e ou os dois, então o vicio pela arte de eternizar sonhos está, definitivamente, dominando as emoções e posso confirmar sem sombra de dúvidas de que este hábito nunca mais saíra da alma do espectador. O diretor é um mágico, assim como Mélies, e talvez fosse o único que conseguisse transpassar a atmosfera perfeita de uma época e da emoção pretendida. Juro que não entendi alguns não gostarem do filme. “A invenção de Hugo Cabret” é uma obra de arte, de homenagem, propositalmente amadora, tendo uma estética técnica arrebatadora.

A sinopse ao lado de “A invenção de Hugo Cabret” apenas situa o espectador sobre a trama. Há muito mais do que isso. O roteiro é extremamente metafórico e utiliza-se de detalhes (assim como peças de um relógio) a fim de construir e amarrar a história contada. Hugo observa pessoas em uma estação de trem (passageiros que vão de algum lugar a outro). Corta e digressiono. Mélies ingressou-se na “profissão” filmando o cotidiano das pessoas. O maquinário de um relógio assemelha-se ao de uma câmera. A persistência e a repetição do personagem principal lembram as inúmeras tentativas de erro e acerto até o cinemascopio ter o seu “propósito”. E o cinema mudo, que “morreu” ao dar lugar ao falado, é protegido por estátuas de natureza morta.

“O tempo não tem sido gentil com os filmes antigos”, lamenta-se. “É como ver os sonhos de dia”, diz-se. “A invenção dos sonhos”, o tema cinema é completa, gerando muitas definições de efeito. “Todos possuem um propósito”, com essa frase personifica de vez o real objetivo do cinema. Traduzir emoções, divertir, emocionar pelo que se vê. O jovem cineasta, personagem apaixonado pela obra de Mélies, é a figura do próprio diretor Martin Scorsese, que aparece como figurante ator. “Com a guerra, juventude e esperança ficaram para trás”, tenta-se explicar a distância ao cinema.

Como sonhar, se a realidade é tão perversa e próxima? As excelentes escolhas do elenco (como exemplos o inspetor da estação, Sacha Baron Cohen, o eterno “Borat”; Ben Kingsley, Helen McCrory – incrivelmente fantástica; e Chloë Moretz, de “Kick Ass”) e da parte técnica (incluindo fotografia e trilha sonora) colaboram com o sucesso do filme homenagem “A invenção de Hugo Cabret”, que concorreu ao Oscar, ganhou em cinco categorias (efeitos visuais, fotografia, direção de arte, mixagem e edição de som) e se tornou uma importante película sobre a paixão pelo cinema de arte. Martin, obrigado por me consertar! Ao espectador, mais do que recomendado. Primeiro filme de Martin Scorsese sem Leonardo DiCaprio após nove anos de colaboração. E Em 2012, ganhou também do Globo de Ouro de Melhor Diretor (Martin Scorsese).

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