Afogados

Por Fabricio Duque


Antes de traçar linhas analíticas sobre o novo filme de Valeria Bruni Tedeschi, “A Casa de Veraneio”, exibido no Festival de Veneza do ano passado, é preciso falar sobre sua diretora franco-italiana, ainda estreante, visto que este configura-se como seu terceiro longa-metragem, após uma carreira prolixa como atriz, que inclui “Saint Laurent”, de Bertrand Bonello; “Capital Humano”, de Paolo Virzì; “Um Bom Ano”, de Ridley Scott; “O Tempo Que Resta” e “Amor Em 5 Tempos” de François Ozon; e “A Rainha Margot”, de Patrice Chéreau.

Com uma carreira tão explorado, nós espectadores sempre esperamos surpresas de atrizes que se embrenham na direção (e ainda atuam em seus filmes). E Valeria Bruni Tedeschi protagoniza todos. Isso não é um elemento negativo, vide, por exemplo, o diretor novaiorquino Woody Allen. Pelo contrário. Quando um diretor opta por vivenciar os papéis que criou, a experiência não poderia ser mais completa. Mas aqui o contrário vira do avesso.

“A Casa de Veraneio” é um filme que imprime a estranheza como fio condutor. São fragmentos de memórias utilizados como material de um filme. É a metalinguagem existencial de confrontar a “astúcia” da maturidade com a nostálgica “fantasia” do passado. É um projeto pessoal, dedicado a seu irmão. “Uma autobiografia imaginária”, define Valeria. A premissa está presente. Só que a forma de contar a história perde-se logo nos primeiros indicativos do filme “Divórcio é a ferida mais profunda que a vida pode causar”.

O espectador busca, aos poucos, entender a atmosfera traduzida em um que de cinema circense de Charlie Chaplin e ou de “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, de Jean-Pierre Jeunet. Mas quando percebemos que na verdade “A Casa de Veraneio” é uma experiência à moda de Federico Fellini e seu Oito e Meio”, então somos acometidos de uma pulsante clareza. Sim, Valeria não é Fellini, ainda que se desdobre para tal.

A história versa sobre uma diretora no processo de seu novo filme que se vê atravessada por questões pessoais. Há até mesmo uma equipe que avalia possibilidades, com a presença ilustre do documentarista Frederick Wiseman (participação especial). Como foi dito, é a metalinguagem do alívio. Em outra colocação da mesa, alguém pergunta: “Qual a semelhança com os outros três filmes?” e outro rebate que este é um “roteiro fraco”. Exatamente. Todo o contexto sofre por fragilidades empregadas que se desconectam antes mesmo de procurar ligações.

A sensação que o público tem sobre “A Casa de Veraneio” é que tudo não passa de brincadeira de criança. De um grande brainstorming surtado no final das ideias. É um filme perdido e “afogado”. De instantes forçados, constrangedores, vazios, dramáticos, histéricos, hesitantes, improvisados, soltos e fora de tom. As interpretações não conseguem o status de anti-naturalistas, e sim rascunhadas ainda nos ensaios. E conta com atores da Comédia Francesa.

“A Casa de Veraneio” acontece por atos. É um filme sobre sua vida. De suas lembranças. Do “estupro” com o “dedo do marinheiro”. Pois é, não necessariamente há a necessidade de infantilizar a ambiência com piadas de peido; com artificialidades do “só o lucro importa”; e “asilo romeno” e músicas que inclui Brasil e Rio de Janeiro. É amador. Desconexo. Desnivelado. Nervoso. Trincado. Desequilibrado. Bipolar. Óbvio. Sem pé nem cabeça.

Cento e vinte e oito minutos que não leva nada à lugar nenhum. Tudo na casa (o espaço comum dos encontros) de um “ex-magnata que despediu milhares de pessoas”, pululado de depressivos e auto-destrutivos. E que do nada começam inflamados, políticos e raivosos discursos de “esquerda versus direita” e seus “cérebros diferentes”. “Sabe qual a diferença entre comédia e drama? Comédia acaba no momento certo”, diz-se. Será este um filme de drama? Que não sabe inclusive se desenvolver?

É também um filme musical, com performances dançantes, concertos e “gatos”. “Não se pode colocar tudo que você vê no filme”, ensina. Mas a diretora não escutou. São segredos vindo à tona, pretendendo criar a atmosfera confrontante do jantar de “Melancolia”, de Lars von Trier, e mais especificamente “Uma Casa à Beira Mar”, de Robert Guédiguian. É um “mundo de loucos”, sem vergonha do ridículo.

Após a morte de seu irmão, a cineasta Anna (Valeria Bruni Tedeschi) decide unir-se ao restante de sua família para passar férias em uma mansão de verão na Côte d’Azur. Apesar da linda paisagem, a mulher precisa lidar com um término recente e com os desafios de seu novo filme enquanto o isolamento das pessoas ao seu redor as leva a externalizar uma série de sentimentos até então reprimidos. “A diferença entre direita e esquerda está no seu coração”, diz-se.

Mas “A Casa de Veraneio” se perde mais quando expõe um que racista e classista. A filha de Anna, negra, almoça e janta com os empregados (a eterna Casa Grande e Senzala). Usa uma peruca loira como brincadeira. Talvez seja a mais real, integrando o público, que em uma cena, aparece para contemplar a vida-peça. Cada um imprime uma caricatura com fantasmas reais da criação, névoa que tenta fundir os limites da imaginação e da realidade. E concluindo, uma obra suicida, que se afoga antes do nadar. São visitantes de um verão sem o calor do sol.

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