Crime Culposo

O real, a ficção e o trauma

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2021

“Crime Culposo”, de Shahram Mokri, se desloca da ficção para a “realidade” por idas e vindas, como um pêndulo de uma narrativa que procura as interseções da forma. Relativamente interessante na maneira como mantém um ciclo auto referencial, desde a cinefilia em si quanto à uma suposta metafísica cinematográfica na superação de traumas históricos, o barato da obra está menos na forma como se compreende o desfecho e mais nos elementos fantasiosos que se atravessam sem rodeios. Quanto mais avançamos no projeto, a coisa parece ficar cada vez mais desconexa, mas são nos últimos trinta minutos que o imbricamento do cinema e da matéria cinematográfica em si, passa a reger um conflito na própria encenação.

A linguagem é flexível, vai encontrar uma correspondência dialógica entre o filme que está em exibição na própria trama, os diálogos que envolvem mitos e crenças, a repetição histórica como uma possível farsa auto irônica de “Crime Culposo” e uma intervenção inusitada que envolve negócios ilegais para pessoas dependentes. Tudo é bastante confuso até que esses encaixes se tornem mais evidentes. Possível que exista uma certa desistência precoce por parte do público, afinal esse caos interno de uma encenação que se modifica em cada eixo, faz com que a única conexão possível seja a materialidade da memória. As conversas de cinéfilos vai atrás da história para criar aprovações internas de uma pequena comunidade que frequenta o cinema, os militares se envolvem em um jogo burocrático que relaciona um míssil que pode vir a explodir com traumas do passado que revisitam um dos integrantes da instituição e o embate social na área urbana é marcado por um atentado em andamento, relações de gênero e o medo do pequeno proprietário em meio à “decadência” dessa sociedade que se marginaliza.

Por essa razão, a quantidade de analogias e reflexos internos, não apenas na história do Irã, mas nessa própria compreensão da ficção como extensão da realidade e vice-versa, vão se amontoando ao passado que é preciso uma frase-chave ou outra para que o espectador possa começar a entender que esses dois universos em constante diálogo, começaram a convergir de maneira irreversível. Se por um lado o debate de “Crime Culposo” passa menos por questões morais, adentrando na refrega política de classes e histórias cristalizadas em instituições em profunda decadência, a memória parece ser o elo que não se discute. As perspectivas são múltiplas, mas existem vácuos nessa narrativa que não tocam em questões fundamentais da própria materialidade de um Irã em constante mudança e repetições do absurdo. A própria influência norte-americana na história do país acaba sendo um ponto paralelo em uma abordagem que propõe uma capilarização da forma nessa construção.

Menos preocupado com o ritmo e com a percepção de como esses contrastes vão sendo colocados à mesa, a ordem do jogo é uma progressão incessante que toma a particularidade para o todo, sem que haja uma deturpação dos fatos e ficções ali expostos. Talvez o grande trunfo do filme, essa relação direta das obras, seja na mesma medida um dispositivo e uma ironia da própria produção frente aos debates propostos. Nessa nota, quanto mais passamos a compreender “Crime Culposo” menos as coisas parecem estar ancoradas em uma realidade empírica, mas sim na tradição do país em si, seja ela com seus problemas internos ou em uma produção cultural que é capaz de transar com o fantasioso. É uma obra tão intrigante quanto confusa, sem permissividades quanto à interpretações múltiplas de determinados personagens e ações diante da objetiva. Se a câmera por muitas vezes está inquieta, em outras circunstâncias parece abraçar uma volatilidade do próprio estoicismo. Nesse jogo de ciclos e repetições, nos resta entender o trauma como uma vertente coletiva que não pode ser abarcada no imediatismo da recepção artística e sim na capacidade de compreender que o conservadorismo entra em seus agentes cênicos como meras projeções de um passado ainda recente.

Trailer

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