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Coupez!

O corte final de artistas formidáveis

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2022

Coupez!

Após realizar os filmes “Mes Amis”, “O Artista” e “O Formidável”, não há como não definir o cinema de Michel Hazanavicius como metalinguagem. Cada um busca uma época e uma homenagem, por exemplo, aos anos vinte e a Nouvelle Vague. Em sua mais recente obra, “Coupez!”, que abriu a cerimônia oficial do Festival de Cannes 2022, o diretor francês leva ao pé da letra o conceito de exercício de linguagem, quando desconstrói a forma narrativa com subjetividade coloquial-orgânica, trazendo o cinema de gênero gore-terrir Z japonês de filmes B com alívios-awkward por um mockumentary dentro do próprio filme que improvisa a própria história para acontecer, e fazer sentido, no meio de todas as falhas, sobre zumbis ficcionais que se tornam zumbis de realidade ficcional. Tudo em um único plano-sequência. Ufa! Vamos por partes!

“Coupez!” pode soar como uma brincadeira sem noção, perdida e caseira de adolescentes que acham que inventaram um novo cinema, mas não. O filme é uma crítica ao meio cinematográfico, de produtores cômodos com o resultado, de atores acostumados com o clichê do glamour, com os investidores, “detentores do dinheiro”, que só querem a literalidade de suas vontades e de cineastas que já aceitaram o mundo capitalista da criação. Este, por sua vez, é uma catarse. Um surto criativo. Uma perda do controle. “Coupez!” quer defender a união da equipe de filmagem, mostrando que cinema só se faz com mutirão daqueles que vestem a camisa e acreditam que a arte pode significar algo. É uma explosão. Uma euforia desmedida e mitigada totalmente de racionalidade convencional, que se explicita no grande final com a última cena. Pelas palavras do diretor, esta obra é um “gênero diferente”, uma reverberação do “making-of com a experiência do “sitcom-like”.

“Coupez!” é uma refilmagem do filme de comédia japonês “One Cut of the Dead (Plano-Sequência dos Mortos)”, de 2017, dirigido pelo estudante de cinema Shin’ichirô Ueda, inspirado na peça “Ghost in the Box”, de Ryoichi Wada. O japonês custou apenas 27000 dólares e arrecadou 8 milhões de dólares nos cinemas. Sim, um gênero popular e com demanda.  Foi até chamado de o novo “A Bruxa de Blair”. Dessa forma, “Coupez!” é um conceito estrutural, porque coloca no roteiro a informação referenciada acima, acoplada com as técnicas narrativas do cinema francês, que quer a realidade, a fantasia e a picardia. E ainda neste caso, o humor escatológico, que ganha o devido embasamento naturalista ao mostrar o outro lado dos bastidores. De como um filme é feito. Das inúmeras artimanhas-artifícios da criação. Quanto mais “Coupez!”, mais os espectadores inferem ao cinema do cineasta brasileiro Cavi Borges, pela energia improvisada de quebrar com invenção a falta de verba e equipamentos. Quando aqui a cadeira vira travelling e/ou toda a equipe se transforma em uma grua, é aí que a magia incondicional do amor pela arte do cinema vem à tona.

“Coupez!” é um resgate à essência-arte do cinema (especialmente pela foto com a câmera da filha com o pai), com muitos quês de Glauber Rocha: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Michel Hazanavicius evoca Jean-Luc Godard, e sua pesquisa constante de vanguardas; o teatro francês clássico, só que modernizado, potencializando o tom espirituoso de Molière, por exemplo; o cinema de George Romero, em especial “Despertar dos Mortos”; “Train to Busan”, de Yeon Sang-ho. E lógico, a Quentin Tarantino, explícito na camisa de uma das atrizes-personagens. Aqui, a atmosfera é de uma eterna fanfarra com inserções de dramas familiares sem o sentimentalismo das relações, como por exemplo a música de efeito que ouvimos, o protagonista pede para acabar. Há uma despretensão anárquica, que referencia o cinema em outros detalhes comparativos como com Adam Driver. Assim, o Festival de Cannes segue sua tradição em exibir obras de virgulas deslocadas, como “Os Mortos Não Morrem”, de Jim Jarmush, também um filme de gênero.

Mas “Coupez!” é demais? Sim. É over? Sim. É surtado demais? Sim. Mas como falar de amor pulsante sem ser hiperbólico? Sua narrativa basicamente traz três momentos. O meio, o antes e o final que justifica as decisões visuais do meio, passando pelas fases de preparação de um filme e com uma cena extra (que complementa com humor a crítica dessa profissão) no final dos créditos. “Coupez!” permite a memória e sugestão dos filmes passados, entre o pastiche estereotipado e o comportamento naturalista em casos extremos. Michel finalizando que este é um filme playgrounds, porque brinca com a ideia de descoberta de uma comédia de situações.

3 Nota do Crítico 5 1

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