Convite Vermelho

Casa se escolhe

Por Vitor Velloso

Vitrine Indica

“Convite Vermelho” é um retrato singelo de uma manifestação tortuosa da sociedade. É construído de maneira lenta, para que ao seu final haja uma catarse que exploda em apoio à causa que o filme busca apontar.  João Victor Almeida não se coloca no centro do debate, nem ousa iniciar o mesmo, tendo como foco principal sua cena final, constrói o curta inteiro em torno deste momento, trazendo esse anseio ao espectador, do que os aguarda. A resposta, apesar de não tão surpreendente, vêm com força em uma cena de sons e cores vibrantes, que consegue arrancar um sorriso de sua protagonista e de uma parte do público.

E lentidão inicial, que nos apresenta uma família desestruturada e marcada apenas pela memória, simbolizada pelas fotos espalhadas pela casa, busca não irromper nessa catarse de quadro final, mantendo uma cadência que não cessa, mas jamais acelera. São planos que passeiam pela casa, mostrando a geografia daquele ambiente, nos lembrando o que significa casa ou mesmo saudade do lar. A partir desse processo, João, articula com carinho o convite que dá nome ao filme, mostrando uma necessidade de presença dos personagens ali residentes, mas com relutância clara do pai, que argumenta que têm trabalho, mas termina no ócio da TV.

A mãe segue animada para ir de encontro ao “desconhecido”, pelo público, se apronta e vai da maneira que pode ao local. A paciência que se constrói durante esta trajetória, não se diferencia do restante do curta, planos fixos que mostram a chegada da convidada ao clímax. Sua lenta subida na escada até o ato de escolher seu assento.

Neste momento “Convite Vermelho” sucumbe ao êxtase e glamour toda sua construção nessa catarse final, que desenrola no sincero sorriso da protagonista. O show que se sucede é potente e mostra toda a liberdade que se têm quando se pode ser quem queremos ser, ou quem nascemos para ser. A realização dessa vontade interior fica estampada na satisfação de um close de encerramento, que situa a queda de um véu e o orgulho nascendo.

Ainda que o ritmo possa ser um empecilho e a catarse surgir como um relâmpago, e como este, ir embora cedo, “Convite Vermelho” consegue ser singelo e expõe parte do preconceito da sociedade em pequenas frases e atitudes. Mas que no fim, através da Mãe, podemos contar com o apoio e o caloroso mostrar de dentes de satisfação. Mesmo que demonstre a impotência de determinadas atitudes diante do lugar em casa. Se família não se escolhe, às vezes o lar sim, não? Essa narrativa quase cíclica põe fim à questão inicial memorial, que reside apenas no passado, trazendo ao presente essa necessidade de afeto.

Trailer

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