Contorno

As inconstâncias e suas distorções

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra CineBH 2021

“Contorno”, de Fábio Andrade, é um curta que parte do movimento de sua imagem para trabalhar transformações e distorções. A própria sinopse ajuda a compreender parte dessa ideia: ‘“Abrei a folhas verei meu corpo virou-se em flôr,” Gabriel Joaquim dos Santos’. Parte desse conceito, se assim poderíamos chamar, surge na tela com as imagens e sons que permanecem em um paradoxo entre um suposto frenesi, já que a constância não é um forte imediato, e de uma certa suspensão contextual da realidade, deslocando o tempo para o que a objetiva está registrando. De certa forma, a manipulação aqui é a exclusão (inerente ao enquadramento) do entorno, que reforça o encerramento do espaço em um tempo particular.

Parte do cinema experimental se tornou uma certa compreensão não-material da própria realidade, retirando-se de qualquer possível categorização, as discussões permanecem em um campo teórico, de diversas estruturas distintas, marcadas pela relativização. Por essa razão, a reta final de “Contorno” até pode oferecer algo a mais para o espectador que procurava ali um propósito mais explícito, já que agora uma imagem permanece diante da tela, contrapondo-se à água que corre. Ainda assim, a deformação permanece, é possível distinguir mas não racionalizar sobre certas passagens. Aqui, a experiência acaba falando mais alto, seja para o público ou na forma em si. Mesmo que não seja possível decifrar certas questões, a curta passagem é o que há e mantendo-se nesse fluxo, inconstante e impermanente, o filme faz jus à própria sinopse, transformando-se em algo distorcido, mas não inconsciente. Acaba sendo algo de pouca eficácia durante a projeção, mas certamente difícil de descrever, racionalizar e categorizar.

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