Conferência

Verdades e fantasmas

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2021

“Conferência” é de uma dureza implacável. O rigor de Ivan Tverdovskiy para construir essa narrativa lenta que passa por traumas familiares, políticos, religiosos e opressões, é impressionante. O título da obra é sua estrutura e o filme não perde muito tempo antes de nos jogar na conferência, mas faz uma importante contextualização do drama, passando pelo retorno da protagonista, sua relação com a filha e os cuidados com o ex-marido. Existe uma brutalidade em cada plano desses momentos, longe da delicadeza de vermos essas relações de perto, tudo é de uma frieza monumental e até as sequências mais íntimas são interrompidas pelo choro ou grito. Está claro que essa parte inicial possui essa especificidade por conta de uma personagem específica, mas a forma com que essa câmera decide enquadrar os momentos belos, como a troca da fralda, está ancorada nessa percepção de um mundo cruel, frio e dúbio.

A paciência na construção de “Conferência” é uma faca de dois gumes, por um lado consegue preparar muito bem cada cena para que o momento máximo possa ir revelando as histórias, em especial o conflito entre a mãe e a filha, que por muito tempo da projeção, não compreendemos. Isso porque existe uma menção a algo que Natasha (Natalya Pavlenkova) teria feito, algo condenável, mas como nunca temos essa informação, a questão fica no ar. Contudo, é nesse vácuo que o filme consegue criar a maior parte de suas tensões, justamente pela ausência de respostas, todas as situações que acontecem possuem um julgamento turvo. A moral aqui sempre caminha com a falta de ética provocada pela própria obra, uma reação particular de cada espectador ao que possivelmente Natasha fez, já que o que temos acesso são as reações explosivas de sua filha, Galya (Kseniya Zueva), que se incomoda desde o primeiro momento com a presença de sua mãe.

O rigor formal é o maior responsável por conseguir criar uma grande expectativa pela “Conferência” e curiosamente, por desacelerar drasticamente nesse suposto “climax”. Veja bem, não existe um grande dinamismo aqui, mas quando a situação se instala, a câmera passa a utilizar frações desse espaço, para expor alguns depoimentos dos sobreviventes do atentado. Nesse jogo de inclusões e exclusões, os relatos vão trazendo uma carga que queima lentamente, entre confissões, juízos, testemunhos etc. Natasha parece ser solidária ao dar o microfone para que as pessoas possam falar, mas está sempre vagando pelos espaços, como quem realiza a mediação do encontro. Apesar de um silêncio fúnebre e melancólico tomar boa parte da projeção, o som da obra cria os maiores momentos de ruptura na narrativa. Justamente por essa suposta calmaria constante, o som é um dos dispositivos de quebra dessa monotonia. Porém, se muito desse rigor ajuda a desenvolver a solução desses traumas a partir de um choque direto, a contrapartida é a queda violenta do ritmo.

Nessa aproximação com a situação limítrofe, o espectador sente o cansaço diante desses relatos e de toda a construção melancólica, lenta e pausada. Quando “Conferência” revela as verdades de sua protagonista, em uma cena que não possui a grandiloquência dramática e bombástica dos projetos industriais, é possível fazer um julgamento de forma mais clara, mas não menos desonesta. A interpretação de Pavlenkova é indescritível e consegue sustentar a obra com uma força arrebatadora. Existem algumas decisões estéticas que realmente podem pesar para parte do público, já que a estrutura lenta é capaz de afastar parte do interesse criado anteriormente. A reta final pode acabar sendo um desgaste ainda maior para quem sente o peso dessa projeção densa e desgastante que traz consigo um peso histórico e social que não pode ser perdido de vista, em especial quando há um julgamento irresponsável, que pode ser na figura do civil ou do Estado. Os velhos fantasmas não nos deixam.

Mas os méritos são muitos, desde a escolha de materializar esse trauma na figura dos bonecos ou no diálogo sobre o “esquecimento”, “Conferência” é importante para ser discutido que mesmo que doa, não se pode fingir que não aconteceu.

Trailer

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