Mostra Um Curta Por Dia 2025

Compartment No. 6

As faces do abandono

Por Vitor Velloso

Festival do Rio 2021

Compartment No. 6

“Compartment No 6” de Juho Kuosmanen (diretor do estranhamente divertido “O Dia Mais Feliz na Vida de Olli Mäki”), exibido no Festival do Rio 2021, é uma obra que provoca uma série de rupturas com o espectador ao longo de sua projeção. Em um primeiro momento, a representação dos intelectuais esnobes consegue um efeito imediato no deslocamento da protagonista Laura (Seidi Haarla). Ao longo de sua jornada, o público é apresentado aos abusos e as negligências emocionais que a personagem sofre, investido em seu isolamento perante o mundo ao seu redor, confinando a realidade em um drama que poderia se tornar excessivamente claustrofóbico e repetitivo caso não se desenvolvesse na contramão deste ciclo.

Desta forma, conforme a relação entre Laura e Lyoha (Yuriy Borisov) atravessa o primeiro contato, terrível e abusivo, a complexidade de seus traumas passa a cruzar uma área comum, em um diálogo da marginalidade, trabalhado entre alguns estereótipos do homem russo e a construção da dependência emocional. O curioso é que “Compartment No 6” não vacila em conciliar suas pesadas temáticas com uma abordagem particularmente leve, conseguindo alguns momentos mais íntimos, quase delicados, mas sempre com uma contrapartida, a aproximação expõe os traumas em sua pior forma. Certamente o espectador irá se lembrar da cena em que Lyoha recebe o desenho e um pedido que anote seu endereço. O interessante é como Kuosmanen utiliza o rigor da falta de espaço no trem, para conseguir ampliar a percepção de seus personagens no interior de seus problemas, a própria divisão de classes, ou compartimentos, do transporte é bastante clara neste sentido. Não por acaso, há locais específicos para questões a serem trabalhadas e a figura da autoridade é sempre negligente com os pedidos de Laura.

Porém, se a primeira metade da projeção soa um tanto maniqueísta nessas relações, a segunda tem uma queda de ritmo na aproximação com sua resolução. A preparação para o clímax deixa as coisas ainda mais turvas, fazendo com que o anseio pela libertação do confinamento espacial e emocional, seja uma necessidade ambígua. Em contraste, os desenlaces de antigos fantasmas do passado tornam-se ainda mais insolúveis, ainda que possuam uma clareza maior. O que centraliza “Compartment No 6” impedindo que o mesmo saia dos trilhos, são as duas interpretações principais, capazes de manter a felicidade momentânea, o medo e a constante consciência das dores do mundo, na mesma medida. Os abusos não são apagados em alguma ternura momentânea, pelo contrário, são projetados na forma como cada um se defende do mundo ao seu redor, dos imbróglios e dos conflitos.

Kuosmanen demonstra uma maturidade ao encontrar uma forma de trabalhar com seus espaços limitados, com a câmera inquieta ou mesmo com a breve felicidade de cruzar um vagão lotado. É consciente na maneira com que adiciona poesia entre as desgraçadas de seu universo, os abandonos e as tragadas desajeitados de quem tenta se encontrar no mundo. Um exemplo claro disso é quando fixa a câmera no primeiro diálogo real entre os dois, onde Lyoha tenta explicar seu plano de ter um escritório de negócios, sem saber exatamente o que isso significa. Em síntese, o diretor desenvolve uma narrativa que vai permitindo um fluxo maior de suas imagens, podendo chegar ao que vemos nos últimos dez-quinze minutos, sem que haja estranhamento. Alguns momentos dessa passagem final, são verdadeiramente bonitos e flertam com uma beleza que só podíamos espiar em sorrisos tímidos marcados pelos olhos tristes e amedrontados.

Por fim, “Compartment No 6” é uma prova que Juho Kuosmanen é alguém para se acompanhar de perto, sem os maneirismo de uma arthouse engessada e consciente de como se constrói um drama que atravessa tantos momentos distintos, que poderia facilmente se perder, mas mantém uma boa estrutura sabendo como desenvolver suas ideias e sustentar a leveza da melancolia.

4 Nota do Crítico 5 1

Conteúdo Adicional

  • Excelente Vitor Veloso, adorei a sua crítica. O filme é muito interessante, provoca a reflexão dos telespectadores o tempo todo, sobre questões emocionais e sentimentos de dúvidas, frustações, medos e inseguranças.

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