Como Cães e Gatos 3: Peludos Unidos!

Peludos unidos, jamais serão vencidos

Por Laisa Lima

Para quem ama seu bichinho de estimação, não há deleite maior do que a possibilidade de entrada na mente deles. Quer seja para confirmar a sensação de equivalência da intensa afetividade sentida por alguns donos em relação a seus animais, ou quer seja apenas pela curiosidade de saber quais pensamentos os rodeiam, o interesse por tal pauta já originou tudo o que o ser humano sabe criar. Livros, músicas, propagandas comerciais, marcas, desenhos etc; foram feitos a partir de achismos, afinal não há total conhecimento sobre o que se passa na cabeça de um animal irracional. Entretanto, as tentativas de compreensão deram tão certo que, desde “Bambi” (1942), feito pela Disney, não param as empreitadas de tornar mais “gente” o que é naturalmente animalesco. O terceiro filme da saga “Como Cães e Gatos” (2001 – 2020), de Sean McNamara, então, faz desta intenção, mais uma vez, uma realidade.

Na cidade de “Como Cães e Gatos 3: Peludos Unidos!”, ex inimigos como os referidos cães e gatos declararam a paz faz um tempo, mas após um plano maligno para destruir tal bom relacionamento por meio de frequências sonoras que instigam a briga entre os bichos, agentes especializados no monitoramento da convivência dos animais precisam agir antes que o caos se instale. Diante desta conjuntura, a felina Gwen (Melissa Rauch) e o canino Roger (Max Greenfield) unem forças (apesar de suas inexperiências na rua), e vão atrás do feitor de uma tramoia que pode acabar inclusive com a união de animais e humanos, inimaginável para ambas as partes. A trama segue neste trilho até o fim, e o acompanhamento da saga de Gwen, Roger e os demais adicionados ao grupo, é instalado juntamente com outras subtramas presentes.

O arquétipo já popularizado de gatos preguiçosos, dorminhocos e razinzas – culpa parcialmente atribuída ao conhecido Garfield -, aqui, não se aplica a gatinha Gwen. Corajosa, a personagem de um quê sarcástico contrasta nitidamente com a responsabilidade e serenidade de Roger, o cão a frente da missão predestinada a salvar o mundo das garras (literalmente) de um insensível não compartilhador de sentimentos construídos ao decorrer dos anos. A ligação de pessoas com animais é demonstrada na forma de diálogos expositores da diferença tanto entre donos e pets, quanto entre as variáveis espécies e seus respectivos tratamentos pela sociedade. As situações impostas pelo longa-metragem são utilizadas de modo a se voltarem para um único ideal: a defesa da respeitável convivência dos diferentes tipos de vida, mas também para a confirmação da discordância nas personalidades de seus personagens, incluindo dos indivíduos presentes no filme.

Com enredos paralelos, “Como Cães e Gatos 3” procura a dramaticidade nas tramas vivenciadas pelos donos dos animais, como Zoe (Sarah Giles), que está prestes a ser despejada do apartamento onde vive e está impossibilitada de levar Gwen – recurso só mencionado na obra, sem aprofundamento -, e Max (Callum Airlie), garoto pressionado pela mãe a ser o melhor no tênis, e amigo inseparável de Roger. Apesar da forçada aproximação dos dois jovens, suas histórias não se desenvolvem a ponto de tornar-se atraentes ou relevantes, sendo um ponto que mirava em uma estratégica comoção ou até maturidade dentro da trama (buscando importância em assuntos como o uso exacerbado da tecnologia), e acabando por ser algo transitório, somente para mencionar o que acontece em torno da narrativa dos bichos, que por si só já possui algumas falhas ao estabelecer ocorridos sem criatividade, como o carro roubado e mal dirigido pelos animais.

Sempre a base de músicas que remetem a jogos estilos The Sims, no qual uma batida rítmica alegre e persistente corrobora com o intuito de gerar uma ação, mas sem deixar o divertimento de lado, os eventos vividos pelos protagonistas trazem a desejada comicidade se for reparada a interação dos animais entre eles mesmos e perante a falta de habilidade em lidarem com uma perversão talvez não tão difundida no mundo animal. O norte em que “Como Cães e Gatos 3” é orientado não é presunçoso de forma a querer levar as ocorrências para um campo de mais seriedade, até porque o filme se inicia com um irreal pretexto – o poder da fala dado aos animais – e continua pelo caminho da leveza até na maneira em que incita o espectador a torcer pelos protagonistas mas sem odiar os vilões, expondo, inclusive, o lado dos mesmos por intermédio de Pablo (George Lopez), e possivelmente em nenhum momento há a preocupação do mal vencer o bem, afinal a torcida é para o bem estar de todos.

Como Cães e Gatos 3: Peludos Unidos!” se propõe a ser um filme leve e a carregar uma temática um pouco trabalhada em obras como “Pets: A Vida Secreta dos Bichos” (2016), de Chris Renaud, por exemplo, mas sem a pretensão de ser reflexivo, e sim mantendo o objetivo de entreter. Para o público infantil, as aventuras de Gwen, Roger e companhia, faz-se competente em toda sua inocência e considerando o carisma dos personagens, elementos trabalhados do início ao fim, podendo ser, aliás, o destaque do longa-metragem. Para os mais velhos, a sequência de previsibilidade as vezes consideradas infantis ao extremo (o que já era de se adivinhar), talvez disperse os espectadores caçadores de uma complexidade que a história em nada vai oferecer. Ao invés disto, a leveza e até a realização em ver os pets tomando seus lugares como seres vivos possuidores de vontades e complicações parecidas com as dos seres humanos, tem a probabilidade de ser suficiente para alguns públicos. No entanto, se uma profundidade narrativa é o almejado, uma película com cães e gatos falantes não é o seu destino.

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