Com Amor, Scott

Retrato subjetivo, em objetivo

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

O campo do documentário sempre foi um palco de debates para a realidade e as necessidades políticas de uma sociedade ou grupo da mesma, para além da construção de uma forma que compreenda essas discussões enquanto obra cinematográfica/televisiva. “Com Amor, Scott” de Laura Marie Wayne, é uma obra que se concentra em um acontecimento particularmente recente da história contemporânea, onde uma homem foi agredido até perder o movimento das pernas, a razão desse espancamento e violência não é necessariamente um mistério. Scott é gay.

O filme internaliza essa necessidade de afeto e compreensão na própria construção, sendo intimista e acompanhando sempre de perto seu protagonista. A jornada do mesmo é dada após o crime de 2013 e vemos uma pessoa que se recompôs, em parte, dessa agressão, ainda que não compreenda a origem desse ódio. A partir do acontecimento, Scott, um homem da música, obrigado a mudar os hábitos diários por razões óbvias, sente falta do pedal o piano e passa a investir seu tempo em ampliar suas capacidades musicais em outras áreas, assim como tentar encorajar o mundo à revelar-se como ele é. A leitura parcial que o mesmo faz da sociedade atravessa um otimismo bastante perene, que facilmente é transformado em uma melancolia explícita. Essa demonstração de uma tentativa de convencimento de que há amor no mundo e as pessoas deveriam ser livres dos julgamentos e ódios generalizados, está bastante estampada no discurso de sua mãe, que se sente culpada pela atual situação do filho “por não ter preparado ele para o mundo”.

Está claro aqui que há uma tentativa de criar essa imagem da culpa, uma obviedade semireligiosa, também ofertada de forma concreta pelo filme, que não compete à própria discussão social, não em um primeiro momento, mas que deve ser atrelada ao embate de forma efetiva, para que o mesmo seja capilarizado através daquilo que há de mais caro nas pessoas que possuem fé. Essa crença no que não se toca, não se vê, é a nota que Scott e sua mãe se apegam, seja por ingenuidade e/ou desespero. O filme segue o caminho da forma padronizada, acompanha as relações de perto, filma seu discurso, compreende essa necessidade da deidade na luta pela igualdade e transforma o projeto em uma consciência cristã dos atos humanos.

A oferta comercial de “Com Amor, Scott” é uma faca de dois gumes, se por um lado ele parece estar excessivamente atrelado ao senso comum de como se filma a vida de uma pessoa e se arquiteta esses relatos em uma progressão lógico/dramática a fim de articular algum discurso político, ou apenas apresentá-lo (ainda que como um apoio), o filme não se afasta tanto do grande público, facilitando o processo didático de assimilação da história, do real, ou seja, permitindo que um maior número de pessoas seja incorporada à discussão. E esse é o maior trunfo do projeto, que se encontra nessa linha tênue de um conservadorismo formal da prática cinematográfica, mas talvez o faça como produto de infiltração em meios sociais. Logo, tratar dessa proposição da linguagem em “Love, Scott” é mais delicado que parece.

As ofensivas que “Com Amor, Scott” parece fazer contra determinados dogmatismos, acabam pairando em um lugar bastante confortável para quem deveria se incomodar com a história de nosso protagonista. Pois ainda que seja um tratado anti-homofóbico, se joga ao mundo como um retrato da vida deste símbolo que é Scott, uma vida que foi modificada em absoluto, por conta dessa prática criminosa do ódio aos homossexuais. O relato subjetivo e íntimo, faz a força política se perder pela ausência de material de arquivo e/ou mais discursos de pessoas que estejam ligadas às mesmas causas que assistimos. A própria montagem acaba intensificando o processo, já que se assimila em um ritmo bastante arrastado e não consegue dinamizar, muito menos relativizar a política das imagens que se consagram na tela, pois não há a intenção de fazê-lo. Tudo que vemos é…Scott.

Esse retrato de constrói a imagem de uma pessoa acima do símbolo da causa, apesar de bastante interessante no papel, se firma como um longa-metragem que parece não possui muita identidade, nem mesmo é capaz de transpor a de seu personagem para a tela. Tornando-se um vale de pessoalidade e política, mas se concentra nas bordas, sem mirar o fundo, “Com Amor, Scott” é um filme importante para agregar mais pessoas, mas não vem pra debater.

Trailer

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