Claun

Parábola carioca

Por Vitor Velloso

Felipe Bragança, enquanto diretor, busca uma maneira de marcar um tratado histórico com o folclore brasileiro, a partir de ícones próprio de uma raiz natimorta em melancolias de lítio despejado do triste rosto do povo que viu sua cultura ser dizimada.

“Claun” não é diferente dos demais projetos, se pensarmos através desta perspectiva, pois busca um resgate único do carnaval, os bate-bolas. A narrativa se estrutura em torno de uma personagem que destemida de qualquer preconceito e medo, enfrenta um entrave no mundo não-terreno e auxilia de maneira definitiva no desenrolar dessa proposição dramática.

O vigor do projeto “Claun” vem de uma necessidade de compreender os elementos míticos dentro de sua concretização terrena. Assim, a encenação busca trabalhar com os elementos geográficos da cidade, a partir de um vislumbre dessa tênue linha da realidade e o misterioso universo que se instaura com a aproximação do carnaval. Essa unidade temporal, que urge em uma data limítrofe, dá ao espectador o tom da problemática a ser solucionada e intensifica as questões morais que ali estão postas. Ainda que a clássica dualidade narrativa esteja em questão, o projeto é hábil em conciliar a dicotomia em espírito carioca que abraça o caos em meio a sedução da decadência.

Os próprios campos de batalha são ruínas que o tempo esqueceu, parte da memória de uma cidade que foi perdendo suas cores para a memória, mas que se revitaliza na mesma, seja através da oralidade ou do cinema. Não à toa, uma força narrativa aqui, é essa tradição tão potente de se transmitir através das histórias, orais, aquilo que deve ser compreendido em dizeres e memória dos que lutaram para a manutenção do passado. Do presente, temos aqueles que sofrem ao tentar investir contra o apagamento do processo histórico que se deu na cidade e na crença dos que aqui ficaram.

Ao assistir a “Claun” uma pequena parábola chega ao espectador, a aventura que a menina sem medo atravessa na refrega do monumento memorialista, é próximo às dificuldades do cineasta de revitalizar a partir do esquecimento, essa seção tão particular do nós que aqui permanecemos por vós hei de lembrar. Felipe Bragança possui um vigor único nessa busca da necessidade de reconstrução, todos seus projetos levam a isso.

Quando o meio cultural brasileiro mantém no esquecimento questões que os assombram, que são exteriores às suas vontades, uma reapropriação de valores (aqui uso o termo da maneira como deve ser interpretado, ou seja, uma argumentação imperialista e dogmática de práticas) é feita, seja para amaciar o ego daqueles que buscam uma nova luta ou um novo inimigo. Mas não se permitem enxergar que a desgraça que nos consome possui lados semelhantes da moeda e devem ser interpretados como tal. A situação nunca foi distinta, o ciclo brasileiro nunca se completou, pois não se fecha o que não se inicia.

Brasil não é uma narrativa literária ou cinematográfica que se compreende em propostas ignóbeis, mas sim uma História que se desfaz a partir de seu início e é serventia de homicida em meio cultural. A sociedade elege novos ícones e os louva em tom de deidade, uma ascensão que cheira a enxofre e de fel nos faz beber. Mas qual a relevância disso? Não seria uma diplomacia imunda que ousa permitir que se faça o mesmo através de anos? Que abrace uma corrupção daquilo que nos é mais caro? Talvez a dificuldade seja essa. Se um dia o sangue fundou a América Latina, hoje não se enxerga a cor desse sangue, mas sim a Ordem e o Progresso das riquezas de um país à venda. Nada de novo no front. O povo segue massacrado, independente da máscara que se esconde no planalto da secura.

E é por isso que “Claun”, assim como Felipe, não unifica símbolos, pois os mesmos são dogmas pragmáticos de opressão, e sim ícones. Pois se ideias são resistentes ao tempo, a morte é ilusão em meio à sonho coletivo. E no fim, só de imaginação e palavras não se vive uma cultura. O abraço caloroso do assassino, não deve ser levado como ato de benevolência, mas de traição histórica.

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