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Clara Sola

Sola: una sensibilidad ecofeminista

Por Giulia Dela Pace

Festival de Cannes 2021

Clara Sola

“Essa auto-conexão compartilhada é um indicador do gozo que me sei capaz de sentir, um lembrete de minha capacidade de sentimento.” (Audrey Lorde)

O realismo fantástico, ou realismo mágico, é uma tendência da literatura latino-americana do século XX que atravessou o cinema em diversos momentos com características naturalizantes de elementos míticos, oníricos e até mesmo folclóricos dentro de cenários e personagens cotidianos ou de uma realidade objetiva. Nesse caso, em “Clara Sola” – filme da brilhante cineasta costarriquenha-sueca Nathalie Álvarez Mesén – a magia e o fantástico se convergem para conduzir o espectador ao processo de libertação sexual feminina e influência social e política da religiosidade na américa-latina. Assim, a personagem protagonista, Clara – interpretada com sensibilidade por Wendy Chinchilla Araya – é uma mulher adulta com um problema na coluna que a impede de se mover normalmente que recebeu dons da Virgem Maria para curar as pessoas, mas é constantemente tratada como uma criança por sua mãe e sobrinha… O que prejudica um pouco o filme dentro da questão do creepface, pois não sabemos exatamente se Clara é uma pessoa PCD ou é apenas lida como pessoa neuroatípica que passou anos de sua vida sendo tratada como criança e privada de interação social.

Por milênios se construiu uma estrutura de desenvolvimento demográfico e geográfico por uma lógica masculina e destruidora, o que clamam muitas das teóricas ecofeministas é justamente se apoiar numa lógica feminina que carrega uma ancestralidade frequentemente ancorada na preservação e conexão com a natureza em diversas culturas. E este fato também estaria conectado com uma certa devolução de poder às mulheres sobre seus corpos, intelecto e participação social. Muito do que se prega em “Clara Sola” vem dessas concepções e o quebra-cabeça que Mesén constrói do consciente e inconsciente de Clara direciona o espectador a ver, não Clara, mas Sola – seu nome íntimo e secreto –, seus toques, sua masturbação, seu prazer que é encontrado também na natureza. E a cineasta deixa claro que esse prazer não é místico ou naturalista, como as mulheres de Aluísio de Azevedo -, mas um prazer erótico feminino de onde Clara retira poder, vontade e capacidade de pensar por si e ver-se livre de amarras e restrições a ela impostas.

Assim, Nathalie monta seu quebra cabeça em menos de duas horas, algo que nem mesmo com exposições que tratam o espectador como acéfalo conseguem fazer muitas vezes, com tópicos redondos e intrincados sem sobrecarregar quem acompanha a história do longa. São escolhas tão certeiras e comuns ao realismo fantástico, pois há um trabalho minucioso do que deve ser escolhido a fim de comunicar complexas ideias em uma situação já repleta de detalhes fantásticos que precisam ser absorvidos como parte do significado o tema abordado. É com essas escolhas que a diretora consegue trabalhar o erótico feminino como algo natural que vem de dentro para fora e que por fim é entendido como uma força capaz de destruir tudo aquilo que antes oprimia Clara. Assim como afirmou Audre Lorde “Reconhecer o poder do erótico em nossas vidas pode nos dar a energia necessária pra fazer mudanças genuínas em nosso mundo, mais que meramente estabelecer uma mudança de personagens no mesmo drama tedioso. Pois não só tocamos nossa fonte mais profundamente criativa, mas fazemos o que é fêmeo e autoafirmativo frente a uma sociedade racista, patriarcal e anti-erótica”

Daí entra a questão religiosa do filme, pois Clara nunca foi chamada pela Virgem Maria ou abençoada por essa figura da mitologia cristã, mas sim pela própria natureza e por seu poder erótico que emana de dentro para fora e fora reprimido por tantos anos. Ela era a força e a natureza, como vemos no último plano antes dos créditos. A protagonista lida com tudo que é tabu ou fora da norma como natural, assim ela ganha força se liga mais à própria mata e à terra. Assim ela revive animais, cura pessoas e causa tremores que se expandem para o mundo fora de sua percepção subjetiva, aí Clara já não se vê inferior ou subserviente a todos, mas escolhe ver queimar o altar onde estava a figura da Virgem: a figura que induziu a crença de que Clara deveria ser punida por buscar além dos limites físicos e restrições à sexualidade que a impuseram com o objetivo de mantê-la “pura” com a Virgem – a Virgem que teve um filho de outro homem à propósito.

E quando Clara provoca esses tremores e demonstra ter certo poder fora do universo cristão, ela é temida. Assim como sua busca por prazer é temida. E como afirma novamente Audre Lorde: “Essa é uma razão pela qual o erótico é tão temido […] Pois uma vez que começamos a sentir intensamente todos os aspectos de nossas vidas, começamos a esperar de nós mesmas […] que estejamos em sintonia com aquele gozo que nos sabemos capazes de viver”.

E o conceito de trabalho também é bem distribuído entre os personagens e afasta novamente Clara dos ideais cristãos de existência. “Ma dice que todos tenemos que trabajar. Ma dice que trabajo para Dios”, nesta cena a protagonista afirma que todos trabalham, inclusive ela. Mas há certa desconexão de Clara dos ideais capitalistas, sistema que observa o trabalho sob um olhar cristão. Em Gênesis 3:19, por exemplo, temos uma das punições dadas ao homem após a queda do Éden: “Ganharás o pão com o suor da sua testa”. Daí Clara, por ver mais a natureza, sensações e vontades humanas – algumas punidas no Éden – sempre tenta fugir e acaba sendo punida por sua mãe, sobrinha e até mesmo pelo funcionário de Santiago (Daniel Castañeda), funcionário que cuida de Yuca – égua de estimação de Clara.

E por fim, uma das cenas mais bonitas do filme, o primeiro orgasmo de Clara como um dos elementos mais marcantes da narrativa que condensa muitos conflitos e temáticas do filme. É no meio da mata com vagalumes brilhantes e delicados piscando aos montes que o espectador pode enxergar o que Clara estava sentindo naquele momento e apenas isso por um instante: relva úmida brilhando oscilante e fino, extasiada, calma e um silêncio onde só se ouve o que a natureza. Talvez a cena mais impactante e importante do filme, pois remete a todo o imaginário da ligação do prazer feminino à natureza e ao seu poder.

“Clara Sola” é, talvez, um dos filmes mais bonitos destes dois últimos anos.

5 Nota do Crítico 5 1

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