Sessão Cine-Escola

Sessão Cine-Escola

Por Vitor Velloso

Durante o CineOP 2020

Sessão Cine-Escola

DELA

Na mostra do Cine-Escola da 15ª CineOP, “Dela” chega como um carinhoso cuidado acerca da manutenção de um imaginário em torno das caras figuras negras que possuímos em nossa História, aqui, Mandela. 

O filme com a direção de Bernard Attal possui oito minutos, contando com os créditos, então possui um caráter de efeito imediato, sem grandes debates e discussões, apenas a exposição e a proposição de uma pauta necessária em tempos contemporâneos, onde vemos uma constante tentativa de apagamento da História brasileira. A cartela inicial cria um resultado sintético de parte da trama do filme, propondo uma observação específica de um momento do Brasil e a partir disso, vai tratar sua narrativa com uma pressa nem tão bem vinda assim.

Os pontos dados pelo curta-metragem são de exposição simples, construindo o que pretende em pouquíssimo tempo, mas não consegue ser didático, no melhor sentido da palavra, para essa questão histórica que expõe. Trata a figura de Mandela como um terceiro personagem, agora de maneira homônima e espelhada na figura da protagonista, porém faz isso para que se conscientize a importância da figura, de algumas necessidades de revisão da iconografia das cidades (como a cena final) e trata de um racismo escolar de maneira igualmente superficial (o que não se configura um problema). Mas a ausência de decoro ao tratar da face Histórica de Mandela, ainda que de maneira ultra expositiva, transforma o filme em uma proposta pouco educativa no imediatismo da coisa. 

“Dela” é didático, mas lhe falta substância para que seja contundente em sua mensagem. Consegue assimilar uma linguagem sem grandes elaborações, com exceção do primeiro plano, e ir no cerne de sua questão, mas o faz de maneira tão apressada e superficial que acaba entregando um projeto que não consegue reverberar após a exibição. Contudo, dentro da proposta do Cine-Escola, com auxílio de um debate, consegue um caráter educacional relativamente efetivo. 

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TEM UM MONSTRO NA LOJA

“Tem um monstro na loja” de Jaqueline Dulce Moreira é exercício de como passar, através da oralidade e da simplicidade da imagem, uma questão cultural que é amplamente conhecida. O didatismo é bastante funcional e consegue sintetizar tudo com a animação quase programática de conteúdo disciplinar, mas sem dúvida se configura um projeto interessante para as crianças. Pois se levado à frente, pode possuir um alto valor no ensino infantil. 

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TORCIDA ÚNICA

Com direção de Catarina Forbes “Torcida Única” vai no cerne de um problema estrutural da sociedade burguesa, incorporado pelas outras classes através da dominação desta, onde a trama é simples e concisa, um jogo de futebol, São Paulo vai jogar, o pai cria uma expectativa em seus filhos com a torcida presente no estádio, porém ele só leva os filhos, mas deixa a filha, Laura, em casa. É uma exposição sintética que não cria grandes discussões durante o filme, mas consegue trazer um amplo campo de debate pós-exibição, pois a exclusão da menina possui camadas múltiplas. 

O didatismo aqui é conferido através de um plano em específico, a foto onde consta apenas os filhos na foto, ou seja, a situação não é exceção. Esse caráter particular da cena atribui uma complexidade que vai para além da estrutura do filme, traz um debate para a sociedade, inclusive para a memória, como ela é constituída através de um problema de base social e é transmitida à perder de vista. 

É claro que aqui se fossemos debater a propriedade política completa do filme, teríamos que trabalhar que a representação vem de uma classe média que se organiza às bases desse pensamento burguês virulento que dominou a sociedade. Mas a síntese criada por Catarina, consegue ser eficiente à medida que gera o debate, porém particulariza isso em camada econômica. Contudo, é eficiente e direto o suficiente para que consiga reverberar para a criançada.  

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RENASCIDA DAS ÁGUAS

“Renascida das Águas” de Julio Quinan, é um exercício de didatismo interessante. Possui um caráter absolutamente direto quanto à sua proposta, consegue transformar parte do discurso, para crianças, em uma forma simples e eficiente. Ao invés de apelar para alguma questão sentimental, utiliza a animação para criar efeitos imediatos, trabalha com símbolos (cruz, flor) e propõe uma sintetização da linguagem para seus fins. 

Quando os caminhões chegam, as plantas balançam, quebram a ordem, a harmonia daquela paisagem. O diretor consegue dar o tom político, sem complicar o mesmo para as crianças, mostrando que a destruição de uma História se dá em nome do progresso e apaga uma cidade e uma população de seu local. Faz isso tendo a plena consciência de que não pode politizar em excesso o discurso, nem mesmo entrar em detalhes da resistência ali criada, logo, utiliza da linguagem e da simplicidade para conseguir uma resolução simples, que aliado à essas imagens mais consolidadas no imaginário das crianças, consegue facilmente captar a atenção delas e gerar um debate parcialmente sólido. 

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ANTES QUE VIRE PÓ

Mais um integrante da Mostra Cine-Escola que não possui grandes pretensões em seu discurso, ainda que o faça com mais classe que outros. É uma linguagem acessível que se orienta a partir de um garoto que quer fazer um passarinho voltar a voar. A temática da perda e do crescimento aparece diluída no meio do projeto, consegue cumprir sua função de caráter didático, mas acaba se entregando à simplicidade mais fácil da forma. A direção de Danilo Custódio até concebe uma funcionalidade à sua discussão, mas acaba transformando algo que era para ser ligeiro e de fácil digestão, em uma lentidão pouco proveitosa. 

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TRINCHEIRA

O filme mais interessante da Mostra Cine-Escola deste ano na Cineop. Consegue construir com facilidade o problema da desigualdade econômica e social no Brasil, a partir de um imaginário. E ainda consegue explicitar o problema de uma homogeneidade entre o pensamento imaginativo das classes. É claro que acaba cedendo à algumas formalidades de um cinema comercial, para que consiga ser didático no nível que pretende, mas faz isso com uma consciência ímpar. 

Paulo Silver, diretor, consegue trabalhar uma questão de perspectiva mais inocente dos problemas sociais, indo para o lado mais lúdico do olhar de uma criança, assim consegue compreender bem, em seu projeto curto, uma ciência plena de um ato infantil, que deve ser mantido, mas que essa desigualdade não permite.


MEU NOME É DANIEL (Único Longa da Cine-Escola). Leia a crítica aqui.

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