Cidade dos Sonhos

Ode à distorção

Por Victor Faverin

Em 200 mil anos de existência, o homem nem sempre foi livre, mas sempre teve a liberdade de sonhar. Assim, desde que o cotidiano era composto apenas por paus, pedras, cavernas e mamutes até os dias de hoje – em que uma edição do jornal dominical contém mais informações do que o camponês do século 19 consumiria por toda a sua vida – o onírico aproveita-se do real, o molda, o amassa, o desamassa, o transcende. “Cidade dos Sonhos” (Mulholland Drive, no original, 2001) é mais um exemplo do consagrado realizador David Lynch e seu estilo lynchiano (caracterizado pela liberdade imaginativa, imagens de sonhos e calculado desenho sonoro), dosado com extremo controle a cada frame.

Com atmosfera de cinema noir, temos personagens maniqueístas, mas cujas etiquetas podem ser trocadas dependendo da perspectiva, do olhar. Lynch parece se interessar mais pela sensação que transmitirá ao público do que pela narrativa em si. As ações e consequências que reverberam na tela são todas orquestradas pela mente inquieta de um diretor que transmite o seu ponto de vista em caleidoscópios. A metalinguagem também pontua o elemento fantástico da trama, que ora volta-se para o drama, ora para o thriller, sem se esquecer do terror, tudo envolto, direta e indiretamente, na história de Diane, aspirante a atriz (interpretada por Naomi Watts em seu primeiro grande papel) e de Rita (Laura Harring), uma mulher desmemoriada que assume outra identidade. Ambas estão imersas em uma torrente de propósitos e despropósitos.

Essa imersão, aliás, não encontra facilitadores, visto que o tom empregado na história é o sonhar, mas a trilha sonora distorcida, porém meticulosa (com três músicas compostas pelo próprio David Lynch, em parceria com John Neff), é um elemento que te pega pela mão e apenas diz “veja, sinta”. Ou não. A presença do oposto – o pesadelo – também se faz presente em “Cidade dos Sonhos”, seja no riso descontrolado de um casal idoso ou no derramamento intencional de tinta rosa em colares, brincos e anéis preciosos. E não deixa de ser irônico um filme ambientado em Hollywood, onde a produção cinematográfica se resume, a sua maioria, em histórias lineares, ter mesclas tão díspares.

É possível, assim, afirmar que o diretor nivela o seu público por cima, entregando um filme complexo, mas que não chega a ser pretensioso, mostrando que o cinema é, antes de tudo, arte – a mais completa forma, aliás – e, como tal, deve ser vista, analisada, sentida. Afinal, entretenimento vazio e escapista não desenvolve perspectivas, não gruda na cabeça do espectador e, tampouco, pode ser considerado o retrato de uma era, como acontece com “Cidade dos Sonhos”. Tais perspectivas delineiam o onírico, reforçando que, quando se está sonhando, um objeto em determinado lugar toma forma em outro, assim como em segundos uma pessoa é teletransportada para ambientes diversos. Tudo isso é terreno fértil para coincidências que, se bem construídas, deixam de ser facilitadoras de roteiro para se tornarem peculiares, imersivas e reflexivas, mesmo décadas depois do lançamento, tal como em “Depois de Horas” (1985), de Martin Scorsese, outro exemplo de quando uma terra de oportunidades é capaz de te comer vivo.

Tal ambiguidade é destacada no rol dos sonhos, em que a estética surrealista representa grande significância. Lynch já declarou em entrevistas o seu amor pela pintura, sobre como quadros podem iluminar corações e mentes de forma simultânea. Nada mais natural que fosse diretamente influenciado por mestres do movimento, como Francis Bacon, cujo autorretrato, feito no auge da carreira, serviu de inspiração à composição da face do personagem título no drama histórico-biográfico “O Homem Elefante” (1980). Repleto de arenques vermelhos, “Cidade dos Sonhos” emerge o telespectador em dois enredos que se conectam sem, necessariamente, se chocar, em uma torrente de acontecimentos semelhantes ao proposto no suspense fantástico espanhol “Preso na Escuridão” (1997), realizado por Alejandro Amenábar e mais reconhecido pelo remake norte-americano “Vanilla Sky” (2001), dirigido por Cameron Crowe.

Em “Cidade dos Sonhos”, em uma cena recorrente ambientada em um teatro cujo nome é outro gatilho para emergir na trama, o performático apresentador diz que “tudo é uma ilusão”. Esse talvez seja o fio condutor para entender a essência da história. Tal esperança de elucidação, no entanto, logo é jogada pelo ralo quando vem a cabo a funcionalidade de outro elemento, uma chave azul, teoricamente a ser usada para desvendar o acidente que levou uma das personagens a perder a memória. O cinema de autor (quando a personalidade artística do diretor ou roteirista é destacada) talvez encontre no diretor um dos últimos sólidos representantes. Uns começam a surgir e outros ainda aparecerão, esperemos. O filme nos faz crer que a obra passou imaculada aos desejos dos produtores e seguiu à risca as vontades de seu criador, moldada sem arestas no cubo multifacetado do estilo lynchiano.

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