Cidadão K

A Liberdade que nos Prende

Por Jorge Cruz

Durante o Festival do Rio 2019

Cidadão K“, do diretor e roteirista Alex Gibney, tem título e abordagem muito parecidos com “Muito Além do Cidadão Kane” (1993), documentário britânico que se propunha a apresentar o império das Organizações Globo, presidida à época por Roberto Marinho. A diferença é que o biografado do longa-metragem selecionado para a Mostra Itinerários Únicos no Festival do Rio 2019, o milionário Mikhail Khodorkovsky, avançou bem mais em sua busca pelo poder e sofreu consequências de escolher o lado errado do sistema. O empresário russo fazia parte de um grupo de empreendedores chamado Oligarcas bem parecido com as famílias que comandam a mídia hegemônica trazida na crítica de A Nossa Bandeira Jamais Será Vermelha“, também com sessões no Festival.

A estética de programa da BBC e o excesso de informações tornam a experiência de assistir a essa obra em uma sala de cinema cansativa, não há como negar. A dinâmica de inserção de novos nomes a cada instante exige a máxima atenção, principalmente pela total falta de familiaridade com as pessoas ali mencionadas. Porém, há algo em “Cidadão K” que o torna bem eficiente para quem tenta compreender a política russa nas últimas décadas: ele não se priva de retornar a pontos fundamentais do passado para elucidar o presente sempre que possível. Com uma narrativa pragmática, o filme parte do final do regime soviético para gastar um bom tempo no período do governo de Boris Yeltsin. Para tudo fazer sentido ao final, é fundamental que a base do que seria uma experiência capitalista seja construída para o espectador.

Khodorkovsky, o “Cidadão K” viu na transição nem tão lenta e gradual que a Glasnot e a Perestroika imaginavam ter feito a chance de atingir o objetivo número um do novo regime: ganhar dinheiro. Com isso ele se tornou dono de veículos de imprensa além de fundar o primeiro banco comercial do país, inaugurando o capital especulativo na Mãe Rússia do início da década de 1990, sendo uma espécie de mistura de Eike Batista e Silvio Santos. Mesmo que o foco do documentário seja o ricaço, com algumas passagens sobre seu passado humilde tão melancolicamente narradas que lembra um pouco “Democracia em Vertigem“, o filme ganha força quando Vladimir Putin é colocado na ciranda como um antagonista. Suas origens e crescimento meteóricos na política é a parte mais dinâmica e interessante do filme sem contar o trecho final. Ao ser registrado como um camaleão político, a obra elucida quem não compreende os motivos de Putin se manter no comando há tantos anos.

A chegada do Capitalismo se mostra bem mais traumática para os russos do que muitos imaginam no Ocidente. Khodorkovsky era um dos que de certa maneira se apresentava como vendedor de sonhos e mesmo uma produção que se ancora em sua versão de injustiçado não se esquiva de deixar isso registrado.

Não é apenas essa ocupação oligopolista dos setores mais fundamentais da economia que aproxima a Rússia de “Cidadão K” ao Brasil. Essa continentalidade nas dimensões acaba gerando a mesma burocracia e dificuldade de fiscalização, o que gera impunidade a quem detém o poder, seja ele político ou financeiro. O milionário, porém, só passa a incomodar quando acredita que ser magnata do petróleo lhe dava o direito de discordar da Governo de um país de democracia e instituições frágeis, achado que ditar os rumos da economia levaria como consequência a influência política.

A caminhada de “Cidadão K” é pesada. Por vezes a curiosidade vai perdendo espaço para o cansaço, principalmente ao assistir em uma maratona de festival. São poucos os momentos que a obra tenta compensar seu didatismo com imagens mais inebriantes. Um exemplo acontece quando o protagonista é enviado para a fronteira asiática, na velha tradição russa de mandar os opositores do sistema dominante para terras frias e distantes. Algo que Putin, já consumido pelo poder ao ser reconduzido à presidência em 2008, faz para transformar o protagonista em exemplo.

Essa mistura de jogral e aulão exige um alto grau de interesse pelo objeto do documentário. O espectador tendo essa característica encontrará um bom filme, alinhado com suas expectativas. Outros se manterão conectados com a possibilidade de ouvir a versão de um homem que foi silenciado por mais de uma década. Um ex-poderoso que usa seu acúmulo de capital para tentar ser uma influência na Rússia, com suas vídeo-chamadas direto da Grã-Bretanha que lembra um pouco o Guru da Virgínia, hoje colhendo os frutos de sua resistência mambembe.

É na parte final, que faz de “Cidadão K” um filme-denúncia, que sua relevância para o debate se apresenta. A propaganda do organização Open Russia, devidamente criminalizada no país, justifica o enorme arco criado pelo documentário. Depositando suas esperanças nas novas mídias, tenta criar no pensamento conservador daquela nação a necessidade de busca por novos comunicadores. Propondo uma oxigenação política, o longa-metragem acaba sendo respeitoso até com o lado no qual bate, ignorando a estética de vilão de James Bond típica de Vladimir Putin. É bem menos conclusivo e mais propositivo ao falar de uma Rússia cada vez mais complexa, em que arte, política e sociedade encontra vertentes incontáveis.

 

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