Chacrinha – Eu Vim Para Confundir e Não Para Explicar

A expressão de uma época

Por Fabricio Duque

Vamos ser sinceros: não há como traduzir-definir os final dos anos sessenta, setenta e oitenta, especialmente por quem viveu-sobreviveu nessas épocas. Era um mundo sem maniqueísmos e sem patrulhas. Aos olhos de hoje, politicamente incorreto, brega, live e “destrambelhado” demais. Abelardo Barbosa, nascido em 1917, no lugarejo de Surubim, Pernambuco, povoou as telas da televisão brasileira como Chacrinha. Após Andrucha Waddington ter ficcionalizado o “Velho Guerreiro” (2018) nas telas do cinema com Stepan Nercessian, em 2021, os realizadores Claudio Manoel (do grupo humorístico Casseta & Planeta) e Micael Langer (os dois dirigiram “Simonal – Ninguém sabe o duro que dei”) optam por documentar em “Chacrinha – Eu Vim Para Confundir e Não Para Explicar” um recorte linear de seu legado. Mas a pergunta que não quer calar, Teresinha, é o porquê de se escolher fazer um documentário protocolar  (ainda que sem censuras) sobre toda essa transgressão pela superficialidade de permissões mitigadas. Será que o momento atual padronizou com rótulos até mesmo o que não se pode enquadrar. Será que faltou descontrolar a “anarquia”?

A narrativa, de estudo biográfico, mais didática e linear, em busca da curiosidade já publicada (como a buzina, seu símbolo, que vem dos Irmãos Marx), vide que o “Velho Guerreiro” era uma figura público e assim despertava a necessidade de pautas diárias, de “Chacrinha – Eu Vim Para Confundir e Não Para Explicar” é conduzida por fotos, colagem de momentos dos programas de televisão, conversas de arquivo com Chacrinha e entrevistas atuais (realizadas em 2017, ano de seu centenário) com Pedro Bial, Luciano Huck, Rita Cadillac, Boni, Stepan Nercessian, Angélica, Wanderléa, Elke Maravilha, Chico Anysio e Gugu Liberato, estas de estrutura clássica-convencional talking heads, chamado de “cinema verdade”. Aqui, todos contribuíram para defini-lo: “desobediente”, “competitivo”, “viciado em trabalho”, “personalidade difícil”, “polêmico”, “controverso”  e “conhecedor” em vender programas “baderna-confusão” de auditório. “Não é só técnica que faz o gênio e com personagem, solta-se a franga com mais facilidade”, disse Pedro Bial.

O documentário apresenta o “entretener transgressor” e questiona como seria nos dias de hoje. Chacrinha teria a mesma liberdade? Era a “expressão de uma época”. “Coisa de maluco” jogar, por exemplo, bacalhau e farinha na plateia e convidados. Brincadeira inocente? “Esculhambação sem maldade”? E mais ainda quando conseguiu unir “elite” e “popular”. Um “paradoxo”. que “tinha tudo a ver com o Brasil”. Uma bagunça generalizada de “mau gosto”. Um programa “tropicalista” com múltiplos e diferentes ritmos musicais. “Chacrinha entendia o produto de venda e se tornou um”. Sim, era tudo por pontos de audiência. Uma luta pelo Ibope. De “maneira tão anárquica e gaiata”. Até “contar pulgas”, entre abacaxis, Chacretes (“Mulheres reforçadas” que simbolizavam o “gosto para tudo”), jurados, “intocáveis”, erotização feminina e “briga encarniçada. “Chacrinha – Eu Vim Para Confundir e Não Para Explicar” pode ser categorizado como uma compilação de situações politicamente incorretas e de excentricidade Kitsch. Uma viagem no tempo com os olhos do agora. Um policiado “julgamento” contemporâneo. Em “Mussum – Um Filme do Calcidis” (2018), a diretora Susanna Lira também precisou fazer uma curadoria mais que específica das imagens a fim de não mexer tanto no vespeiro ao contar a história de um dos Trapalhões.

Aqui, nós encontramos todas as quebras de moral (inclusive muito superficialmente suas “travessuras fora de casa”), mas protegidas pelo novo tempo. Assistimos com olhar datado, quase assustado, a uma época “sem lei”, “irreverente” e “alegre”. “O mundo mudou e ficou chato sim”, disse Bial. “O erro está nas classes. Freud não explica nada”, respondeu com atitude. “Era uma antena de comportamento”, pontuou Luciano Huck. Nós nos perguntamos o que mudou. Será mesmo que o passado era mais feliz que o agora ou ainda não tínhamos doutrinação para ver decentemente?

“Chacrinha – Eu Vim Para Confundir e Não Para Explicar” também expõe confissões, como a do Boni que abre o jogo sobre a estratégia de guerrilha contra Chacrinha. Sim, reiteramos a ideia de que Televisão é briga de “cachorro grande”. O roteiro não desperdiça nada. Quer ser fiel e honesto sem apagamentos com a história do biografado. Mas há um muro. Uma fronteira. Um anteparo. Um quebra-luz. Que impede acessar a essência dessa anarquia, traduzida de forma romanceada demais. “Para competir com a vida real, a ficção tem que comer muito arroz com feijão. O filme não é uma apologia ao Chacrinha, a gente não tinha pré-disposição de idolatrá-lo”, declara um dos diretores Claudio Manoel.

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